Sublime em sua fase empírica e psicológica.


The Mcpherson tape

Dean Aliotto 

"Poderíamos aqui acrescentar que os prazeres da fantasia melhor conduzem à saúde do que os do entendimento, por estes serem resultantes de um denodado esforço de raciocínio e acompanhados de excessivo labor do cérebro. Cenas deleitosas na natureza, na pintura ou na poesia têm influência benéfica tanto no corpo como no espírito. Não só servem para desanuviar e estimular a imaginação como são capazes de dispersar a dor e a melancolia, despertando um aprazível vigor natural. Por esta razão Sir Francis Bacon, no seu ensaio sobre a saúde, não julgou impróprio prescrever ao leitor um poema ou uma paisagem, dissuadindo-o, sobretudo, de se entregar a difíceis e ardilosas locubrações e aconselhando-o a prosseguir no estudo do que de sublime e nobre preenche o espírito, tal como narrativas, fábulas e meditações sobre a natureza." - Addison

O enclausuramento não é causado somente pelo espaço aqui mas promovido pelo próprio aparato, a câmera em si, que estreita o espaço para que a claustrofobia impere. A dimensão disso em relação a natureza que é filmada não só pelo sentido da floresta que aparenta rodear a casa, e percebemos isso mais através do som do que os momentos em que esse cinegrafista esta fora daquele primeiro espaço da casa. A falta de energia elétrica remete a isso também, é perceptível o isolamento em que eles estão inseridos. E essa naturalidade como disse que veem através do som direto, afinal não temos trilha sonora, e não somente dos insetos em certo momento raro de silêncio, mas nas trocas e da próprio falta de dialogo entre os personagens, afinal uma verborragia intensa.

A câmera em constante movimento reforça essa caoticidade e da falta de diálogo, e é o mote geral do filme, da câmera que não consegue se estabelecer num único ponto, mas que de forma curiosa esta sempre desconstruindo esse espaço que já é em si estreito e mínimo. Não a toa, o clímax do filme vir na oposição disso, quando a câmera é por fim posta em êxtase, ou seja, em estática, perdendo sua inércia mobilizadora inicial, causando uma contradição impar ao filme. E é aqui o momento também em que o sentido documental desse gênero fica ainda mais evidente, pois é do recorte máximo do enquadramento de que ele sobrevive, e do descarte do fora de quadro nessa afirmação. Só que aqui o fora de quadro se faz bastante presente, por isso o sentido ficcional contrastar de imediato com esse momento de quebra da inercia, e quando o filme resolve respirar e realmente forjar sua verossimilhança.

Portanto é desse contraste entre a ação da câmera na mão, contra esse raro momento de plenitude que a obra se faz relevante, e por mais que nesse segundo momento ainda reste um resquício desse anterior, não causando uma ruptura radical, mas também uma continuidade, que o filme carrega essa força convergente entre os dois polos da ficção e do documentário, pois esse enquadramento final ainda é um tanto torto, e possui traços de pós produção ao emular falhas de chuvisco na imagem como a interferência de algo extraordinário que se aproxima. É um sentido histórico da filosofia que opera aqui, da filosofia da arte para a estética moderna, e o retorno da filosofia da arte como superação desse meio caminho da subjetividade instaurada pelo sublime, passando à singularidade, preenchendo tanto dentro quanto o fora de quadro como marcas estilísticas da linguagem cinematográfica, maa também não é só mais pelo estilo, da câmera na mão que simula uma maior realidade dos acontecimentos, mas o contraponto que a própria câmera impõe ao instaurar uma estática contra esse movimento anterior, para que daí em diante esse sublime e extraordinário retorne com força ainda maior, e até pela refilmagem fora de curso, que fundamentará esse gênero cinematográfico no século vindouro. Em outras palavras, a imagem perde a verossimilhança do estilo documental e diretamente empírico para retornar ao sentido da câmera única e estática do cinema mais clássico, da aparência de verdade, do trem chegando a estação, por mais que ela mantenha certa continuidade com essa câmera flutuante do gênero posto em questão.

Referência

Os Prazeres da Imaginação - Joseph Addison

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