Elo tradicional.
No such thing
Hal Hartley
"O mundo de hoje é um caos de opiniões e aspirações conflitantes: o assim chamado "mundo livre" é um caos fluido; a parte totalitária do mundo moderno é um caos rígido. Em contraste com ambos, o mundo antigo sempre constituiu uma ordem, isto é, uma hierarquia de conceitos, cada qual em seu próprio nível. O caos tem sido produzido, como vimos, pelo "achatamento" humanístico da hierarquia até o nível psíquico, e pela conseqüente intrusão, nas considerações mundanas, de aspirações sobrenaturais frustradas e pervertidas. Qualificado por sua própria natureza para prestar culto, o homem não pode deixar de cultuar, e se sua perspectiva é cortada do plano espiritual, ele encontrará um "deus" para adorar em algum nível mais baixo, dotando, portanto, algo relativo com o que pertence apenas ao Absoluto. Daí a existência hoje em dia de tantas palavras "mágicas", como "liberdade", "igualdade", "alfabetização", "ciência", "civilização", palavras cuja simples menção faz uma multidão de almas cair prostrada em adoração submental. As superstições da liberdade e da igualdade não são apenas o resultado mas também, parcialmente, as causas da desordem geral, pois cada uma à sua maneira constitui uma revolta contra a hierarquia; e elas são ainda mais perniciosas por constituírem perversões de dois dos mais elevados impulsos do homem. Corruptio optimi péssima, a corrupção do melhor é a pior forma de corrupção. Mas, restaure-se a antiga ordem, e os dois ídolos em questão evaporarão do plano deste mundo, deixando às legítimas aspirações terrenas por liberdade e igualdade espaço para respirar, e, mais uma vez, ocuparem seus lugares, transformados, no cume da hierarquia."
A fabula carrega consigo um sentido maior de Tempo e de inocência que faz com o gênero seja muitas vezes deixado de lado por questões de ritmo desse tempo que não condiz com os movimentos e ações cotidianas, o que me parece um tanto grotesco quando se trata de arte. Da arte em si por mais próxima que seja da realidade faz com seja propriamente inocente e por mais documental que for e jornalística, só reforça todo o sentido espiritual de qualquer geografia. Hal Hartley irá se utilizar em seu cinema da economia em seu sentido mais rasteiro possível, de escassez, ou melhor aqui, de minimalismo. A economia para Hartley serve nesse binômio entre a falta de recurso de um cinema mais independente, não só pela estética, mas pelo pertencimento de um grupo, afinal é um filme produzido por grandes como Copolla. Política. Designação primeira que leva ao sentido segundo dessa economia, a de minimalismo, em seu viés simbólico de persuasão dessa mesma política que tem como finalidade o pouco recurso.
O filme irá usar como argumento desse jeito tanto sua força simbólica advinda desse mínimo quanto a real economia primeira, dita acima, onde muitas das imagens serem tratadas através do roteiro em sua forma mais literária possível, como quando ao descrever a queda do avião enquanto a personagem é içada e regatada para o barco. Dessa economia ao som em off do casal sendo ovacionado no aeroporto, cena que irá reforçar também o que carrega de mínimo na alma aristocrata, e das suas dificuldades de envolvimento com o que é humano, e sua perdição na natureza do que esta além. Não à toa a alusão ao teatro também é comumente percebida aqui, dos palcos que são encenados mesmo que a ilusão da coxia permaneça sempre presente ao campo de visão do espectador, onde somente as cortinas podem velar, e aqui através das forças centrípetas, do foco nos personagens mesmo quando em cenários abertos. Poderíamos dizer que essa economia seria assim antimetafísica se a temática do filme não se sobressaísse para aliviar essa tensão do que esta dentro e do que esta fora do campo/palco cinematográfico.
O que só deixa o filme mais fabular ao preencher o sentido econômico com polifonia que vão desde seu sentido mais estrito e material a animosidades aristocráticas, do monstro que não é em si um mostro, mas alguém incompreendido que tentará através dessa economia mais grosseira voltar a realidade finita. Assim o diretor demonstra que quer tanto fazer dessa matéria sua própria metafisica quanto ao contrário, sendo o equipamento que faz com que esses casal renasça, a primeira que consegue voltar a andar, e o segundo que consegue voltar a se relacionar humanamente com o outro perdendo seu sentido vitalista de evolução criadora, mas que ainda assim não soa tão radical quanto nos que esperamos do sentido que pesa mais e que se demonstra mais metafisicamente aos nossos olhos mal educados pela matéria, que a depressão acaba sendo um dos pilares fundamentais dessa alma perdida pelas revoluções socialistas amorais, onde seu triunfo principal foi retirar da tradição metafisica o seu sentido mais social e radical a qual carrega, impondo uma terceira via diletante que fez com que essa transcendência só fosse possível através de uma técnica transcendental advinda de seu próprio seio.
Referência
Sabedoria tradicional e Superstições Modernas - Martin Lings
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