Antimimom Pneuma


 

Un filme comme les autres

A união que se forma a partir desta junção do discurso com o "desenquadramento" vem no intuito de tomar de assalto isso que é deixado durante a projeção, digo, não é o material que observamos, como teorias de valor financeirizadas e quantitativas, mas a própria forma-metafísica da ideia. Corpos mutilados e recortados pelo enquadramento são reconstituídos como um Frankenstein pelo discurso, que se torna política por nomear e julgar o inimigo, enquanto os amigos estão em comunhão nesse rebuliço de imagem e palavra falada, sempre em off como é o caso aqui, mesmo que esses "desenquadramentos" simulem uma diegese da voz. Afinal, a palavra falada em sentido de politização é o próprio verbo que dá essa energia de movimento à carne, o sopro de vida, a pneuma. É o espírito transcendente do que ficou a nós como observação e empiricismo, uma matéria morta, se é que podemos chamá-la de matéria, uma elucubração sobre atos passados, mesmo que recentes, já perderam o eco e estão em ascendência, em movimento verticalizante. A internacionalização do liberalismo tem seu fundamento, já pode começar seu replantio em outras terras.



Je vous salue, Marie

O barulho da cidade, de carros, trens, aviões, se confundem muitas vezes em tom com o "barulho" da natureza; é dessa união sobre a qual o filme anterior comentado discute. Mas também não é assim uma simples provocação entre sagrado e profano, mas uma junção, como a sensualidade que é enquadrada. Godard começa a entender que o cinema está mais para uma arma de guerra do que uma arte, mesmo que alguns críticos insistam nesse retorno dele ao lugar primordial dessa arte, como um dos grandes construtores ficcionais.

O materialismo, como René Guénon nos alerta, é já uma degeneração do mecanicismo cartesiano,em que tudo é atomizado, cientificado pela quantidade em detrimento da qualidade, da simbologia. Aqui, Godard consegue desmistificar esse materialismo em sensualismo e desmistifica em sentido de exorcizar o arquétipo da matéria. Como a ficcionalização tem duplos sentidos, podendo gerar malefícios que acarretam nessa degenerescência, o diretor se utiliza desse limiar entre o erótico e a pornografia, como se todo esse progresso tecnológico e urbanístico pudesse estar em confluência com uma trama mítica e antiga. Assim como a modernização dessa escritura sagrada perpassa aqui pelo divórcio, um preâmbulo que serve mais a essa provocação de um artista que surge em revoluções constantes, do que ao tradicionalismo, reforçando essa problemática ambígua da poética, que serve tanto ao mal como ao bem, ou ainda dessa suposta alma heroica que venceu as intempéries do mundo, constatada na subtrama, e que não cabe no quadro de cinema. Ao mesmo tempo que retoma as questões morais, ele as utiliza como comentário de algo ainda mais antigo, ao qual seu cinema se mantém fiel: a forma e à contradição que a autoria gera nessa tentativa de industrialização da técnica do filme anterior, sendo que aqui a rostidade está presente, mas mais que ela, o corpo de Maria.



For ever mozart

A dialética aqui se dá por sobreposições, principalmente sonoras: enquanto um quadro termina sua imagem, seu áudio continua no quadro seguinte; sua diegese passa a ser não diegética, diferentemente da oposição controlada, principalmente em filmes mais industriais, como o próprio Godard, trabalhado e comentado aqui em primeiro lugar. Sendo a ficcionalização do filme anterior sobre o mito, trazida aqui nesse como um processo mais teatral, como a encenação parece ser quebra de paredes que nos permitem vislumbrar a essência do que está sendo filmado: a realidade como própria produção de verdades. O fato histórico não é apenas um fato, um documento, mas algo passível de ser encenado, simbolizado, mesmo que a degenerescência seja a marca de uma arte como o cinema, nada ritualística a princípio, mas devidamente ensaiada e industrializada, retirado seu ethos experimental, ainda que a superfície do rosto seja de prontidão — o que configura a retórica do próprio autor —, de fazer com que uma interpretação reimaginada de Mozart soe como algo deslocado no espaço-tempo, perdendo sua força centrípeta, alcançando o que faz do cinema mais que edípiano, mas sim uma nova forma de apanhar os sinais da história, e servir a uma técnica ritualística, gravando-se assim em uma metafísica, ainda que não saibamos, em mera consciência e psicanálises, balizar o sistema que está diante de nós, traçando a oposição perfeita com a outra força, centrípeta-religiosa, em busca do centro, da essência.

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