Hilemorfismo teatral
The Trouble with Harry
Alfred Hitchcock
"Nos experimentos sobre eventos atómicos temos de lidar com coisas e factos, com fenômenos que são tão reais como quaisquer fenômenos na vida quotidiana. Mas os átomos e as partículas elementares em si não são tão reais; formam um mundo de potencialidades ou possibilidades em vez de um de coisas ou factos... A onda de probabilidade... significa tendência para algo. É uma versão quantitativa do antigo conceito de potentia da filosofia de Aristóteles. Introduz algo que está no meio entre a ideia de um evento e o evento real, uma espécie estranha de realidade física exatamente no meio entre possibilidade e realidade."
Retirado o sentido transcendente do movimento metafisico pelos materialistas ao radicalizarem a imanência transformando-a em substância dão liberdade ao transcendental,. Movimento esse que explicitei de certa forma num texto recente sobre o filme "Dr. Jekill et les femmes", que se clarifica ainda mais aqui com Hitchcock, mas também nessa dicotomia entre Aristóteles e Platão no que concerne a diluição das ideias platônicas transcendentais pelo um certo materialismo cientifico de seu discípulo. E que em "Trouble With Harry" é representado pela constituição social ao qual a inimizade molda esse corpo heterogêneo de relações. Muito representado pelo sentido histórico da própria Inglaterra e seus símbolos anglicanos da separação de Roma, metafisicamente.
Seguindo essa introdução o filme irá nos dar a princípio no que tem de mais teatral no cinema, planos que contem todo o cenário e que aos poucos, com o aproximar da câmera, as cortinas, metaforicamente, vão sendo derrubadas, pois não podem mais serem abertas, não há mais o espaço de abertura, para onde correrem, levando ao plano médio o meio termo dessa composição entre as duas artes, a qual respeitosamente à tradição, não se satisfará de closes, não ha rituais assim dizendo que desvelem ainda mais esse plano cinematográfico, o que afinal reconhece a primazia desse transcendental, do técnico, e da independência da arte, mesmo que ainda permaneça de uma maneira sintética e artificial, o que aqui também é muito enfatizado pelo movimento de duração dessas relações e afetos que constituem esse corpo social, ou seja, as elipses que deixam em aberto as possibilidades de que essa obra não sirva de espelho para uma real constituição social, o que já é em si um problema, pois cria uma maior dependência à própria arte.
Enquanto a sociologia para um diretor como Tim Burton serve como aparato burocrático para se elevar alguma critica e espirito, para Hitchock isso nao chega a ser uma substância originária, como se fosse um Deus espinosista, mas a própria técnica em seu sentido mais industrial e romântico até, e dessa técnica como sinônimo da arte por si mesma, e em conflito com essa produção massificadora, uma dialetheia que ao mesmo tempo que se põem como paradoxo também se faz resignificadora de contextos lógicos e sociais, isto é, da imanência que exclui seu contraponto direto, mas que nesse movimento se torna tutelada pelo fantasma desse contraponto agora distante e disforme. O close portanto virá de maneira quase velada, um meio termo de algo que nunca é, e que só será revelado por inteiro pelo mais didático das relações cinematográficas, o campo/contracampo, mais escancaradamente exemplificado no embate entre o artista e o aspirante a detetive, mais um desses personagens que serão excluídos para reforçar ainda mais as relações do núcleo que terá na conclusão seu desfecho de maneira mais atemporal impossível, no sentido de que mesmo que a ciência venha para classificar e separar as coisas, tecnicamente, através do aparato principal do cinema, a inocência do tempo é que perdura tanto na absolvição das injúrias quanto das juras e justiças daquele tecido social.
Referência
Física e filosofia - Werner Heisenberg
Comentários
Postar um comentário