Relações demasiadamente funcionais.


Le fantôme de la liberté

Luis Buñuel 

"O primeiro panteísta consistentemente monista na história da filosofia e da religião também foi então Baruch Espinosa (1632-1677), cuja reflexão coincide exactamente com a “data de Bockelmann” da transformação concluída em grande parte inconscientemente (reflexiva apenas indiretamente) para a moderna abstracção real e lógica funcional do dinheiro. Se, portanto, a “descoberta da imanência” se situa em Espinosa (mesmo na própria interpretação ideológica de Antonio Negri), então trata-se da transição para a moderna e paradoxal “transcendência imanente” ou transcendentalidade; com efeitos de longo alcance para o iluminismo e para a metafísica materialista (como é o caso justamente também de Negri)."

É sobre a desconexão e alienação, e de como isso esta envolvido na própria forma do filme, pois afinal são blocos de episódios que se relacionam tematicamente, dos padres que jogam cartas ao almoço na sala nos assentos de privada, e que se coordenam também por meio desse sentido surreal, e que por mais realista que as imagens e cenas acabem se tornando, numa não distinção direta pela superfície da imagem, é através desse processo intuitivo que esses episódios se unem.

Então não é que sejam reais episódios independentes com seus próprios personagens, mas que dependem um do outro até mesmo para formar a duração de um longa metragem, ou seja, o tempo em que o filme se desenvolve é limitado justamente por essas uniões contraditórias entre essas pequenas historias, do fetiche que surge dessa imagem que insiste em descolar da superfície, mas que não faz nunca por conta do rigor teórico do diretor, nessas suas vontades em manter o surreal e o real em condicionantes, o que afinal acaba levando o filme a um lugar um tanto desmotivado e impotente em apresentar sua critica aos costumes burgueses.

A materialização dessas forças que se contradizem, mas que ao mesmo tempo estão unidas, é feita dessa maneira por Buñuel como uma especie de lição moral que transcende o próprio objeto fílmico, e se transcende o objeto que já é em si objetificado, fetichizado, então esse transcendente passa a ser de outra ordem, ou que Kant antes de Marx chamou de transcendental, e que academicamente foi instituído como a ferramenta máxima do pensamento, e da epistemologia. O transcendentalismo kantiano será portanto de suma importância também para o materialismo e suas vontades antitéticas que surgirão depois das consolidações industriais que se fazem na década de 70 do seculo XX, o grande fantasma que irá comandar todo o início do século seguinte quanto o final desse que passou, já são quase 50 anos da renovação liberal na economia, e que é em sua maior parte fundamentada pelo socialismo materialista da penúltima revolução industrial.

Mesmo que o diretor aqui não admita isso e deixe o filme se levar por essa recepção de padrões dialetheicos, do surreal imbuído de realidade, que tem no kantismo toda a força espiritual ainda sustentadora, tanto agora em pleno 2026 em qual escrevo esse texto quanto na época desse filme, e com certeza ainda por mais longas décadas aqui no ocidente, até quando a "esquerda" que perdura por agora não se assentar no valor da filosofia kantiana antes de Hegel, e o que ela irá se tornar a partir do obscuro deleuzianismo assim sendo.

Referência

A História como aporia: Teses preliminares para a discussão em torno da historicidade das relações de fetiche. - Robert Kurz

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