Verdadeiro cinema cerebral.



Bloodrayne
Uwe Boll

"Em suma, para falar de uma maneira comum, mais se muda o ornamento, menos se toca naquilo que ela encobria ou ornamentava. O filósofo pode então concluir que a noumenobiologia que ele havia desenvolvido não é discutida. A vitalidade não foi nem anexada, nem enfeudada numa outra além de si mesma; ela não cessa de se auto-regular." - Dagognet.

A falta de vontade de fazer cinema por Boll vai além do sentido próprio e supostamente científico do que poderíamos classificar como cinema. Mas que classificaremos para que essa vontade demonstre assim uma maior complexidade. O sentido mais radical de um anti-cinema se faz dessa maneira como uma forma de produzir uma outra norma que faça com que o classicismo não possa operar e daí produzir uma outra autoridade sobre o objeto, a obra de cinema. Não há ao menos uma vontade de construir drama, não existe tempo a isso em seu cinema, pois é necessário que o espaço se de espaço para que o tempo possa fluir de certa forma controlada para que daí surja o drama. Isso é explicitado pela ânsia que o diretor tem com os closes, principalmente nas cenas de ação quando o sangue esta jorrando, mas há em outras ocasiões fora da ação mais estrita que o close se faz útil para que aconteça essa quebra ou salto sobre o tempo-drama.

E diria somente o tempo-drama e não o espaço-drama porque no momento em que esses espaços-enquadramento do cinema a partir da edição de sua autoria esfacelam essa questão do espaço como entidade precursora do tempo, fazendo com que a fluidez dos blocos de cena ganhem um tempo próprio para se consolidarem exaurindo qualquer possibilidade de drama. As cenas de ação não engrenam por isso, o tempo perde sua consciência e imanência de sua materialidade para se tornar algo único e isolado. O maior exemplo disso esta na cena do sexo, que acontece de maneira tão avulsa e randomizada que parece estar suspenso na trama de forma isolada, trama essa a qual também inexiste, pelos mesmos motivos, e mesmo que o roteiro insista em alguma estrutura de desenvolvimento para sustentar a história como um todo; mas há aqui um plano que se transforma numa quimera através dessa transcendência do tempo imaterializado e sem mais  magnetização desse espaço, quando a princípio, e de maneira útil, a câmera se põem por detrás de uma mesa para que haja uma sobreposição aos atores formando de certa maneira uma censura do ato sexual, mas que ao mesmo tempo serve como um close estratificado desses corpos, retomando assim a conjuração do plano-espaço-enquadramento como a matéria refeita por essa consciência temporal que paira.

Fica mais claro com isso a batalha travada pela tradução do conceito vontade de poder em Nietzsche, onde os franceses traduziram para vontade de potência, forçando assim como exemplo tirado desse filme, a temporalidade sobre o espaço, e dessa forma o poder que esse espirito exerce sobre a matéria, dobrando-a. A aceitação afirmativa de Kant através do dionisíaco. Não é então que assim a relatividade consolidada pelas influências românticas no seculo XX trouxeram um novo gás aos marxistas e as ciências duras, com seus espaços dobráveis e anti-euclidianos para a concepção de nossa consciência, mas a generalidade que o tempo carrega em si, de maneira potencial perante o próprio poder, movimento retilíneo no eixo transcendente-transcendental como uma lança de duas pontas para romper o espaço e transmuta-lo em quimeras. Uma ferramenta cética podemos afirmar assim, pois ao destruir o enquadramento, o tempo se torna livre para conjurar o que quer que seja, entendendo também que o tempo para Boll é algo anterior ao enquadramento, afinal é concebido na pós-produção da edição, mesmo que a posteriori das filmagens a encenação já é concebida por ele, a edição seria dessa forma o momentum de sua operação.

Essa vontade de potência acaba criando uma dicotomia entre o tempo e a superfície da imagem, pornografizando-a. Já que o tempo precede tudo, e o espaço não possui poder e autoridade para Boll, então a confusão gerada pelos acúmulos das cenas antidramáticas criam esse fetiche extremamente superficial pela imagem, implodida por esses planos fechados, utilizados para dar mais ênfase na falta de vontade por esses tempo mais materializado do drama clássico. E isso vai além inclusive de conceber as formas da própria industria pornográfica, mesmo até a amadora que necessita do tempo por fora da edição a posteriori.

(1. O close que vem da estratificação causado pela sobreposição de objetos, uma espécie de splitscreen. 2. O close que serve como quebra do espaço, rompendo a sequencia dramática do tempo 3. O close burocrático que faz a suposta trama se mover, dando salto entre as cenas.)

Referência

Filosofia, ciência e vida no pensamento de Canguilhem - Vera Portocarrero

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