Contrato social e o Estado-mulher.


The long kiss goodnight
Renny Harlin


"Observem que as mulheres não aceitam que sejamos humanos. Isto acontece porque desejam se entregar a um "Além do homem". Quando descobrem que aquele que têm ao lado é humano, sofre e sente, se enfurecem ao invés de se compadecerem. Saiba que seu sofrimento emocional provocará irritação ao invés de pena. É quase impossível para elas sentirem piedade pelo sofrimento emocional daquele que era para ser o seu homem. Por isso, se você solicitar ser amado, é mais provável que provoque repulsa do que piedade." - Alita

A simulação em que Harlin submete o roteiro no sentido de que o filme se contorça para que haja uma distorção do que é real, desde as atuações como princípio em si, de simulação de uma realidade quanto a temática do filme, a qual perpassa diversos gêneros, ainda que permaneça confrontando a si mesmo, como por exemplo essas mudanças de nuances entre o filme que passa de um drama familiar, da mãe com amnesia ao triller de perseguição política, isso tudo através também da comédia, ancorado pelo personagem de Jackson. Nesse sentido a memória será de suma importância para que haja essas alternâncias de atmosfera, sendo o próprio flashback que faz a ponte entre esses gêneros, um lugar distópico e onírico, e da memória não somente com o sentido muscular e intuitivo, mas como posto, um lugar em paralelo.

Essa aproximação desse espaço que se coloca além, como contraste a princípio, se mostra cada vez mais próximo. A cena de enfrentamento na casa, logo na primeira parte do filme, demostra essa aproximação de maneira mais absoluta, sem a referência e contato com esse paralelo. Esse espaço serve assim mais como uma burocratização imposta pelo roteiro do que algo que influencie a trama de forma mais simbólica, a não ser pela vontade que o diretor insiste nessa duplicidade que transcende o filme como um tudo. Explico melhor, esse espaço onírico em paralelo que se aproxima da real realidade do filme tem ainda como uma imagem um terceiro elemento que faz a obra se mover, o da mulher como baluarte de toda uma nação, além de dona de casa, ela é, mesmo que inconsciente uma assassina de terroristas.

O filme vai brincar a todo instante com isso, afinal a duplicidade das relações sempre é ambígua de maneira que faça com que esses gêneros funcionem mais como distração do que a real vontade do diretor, da duplicidade da mulher em dar o sentido do filme, tanto onírico, próximo a real realidade psicológica e esotérica do filme, quanto a própria força dicotômica e do desdobramento da geografia sagrada em geopolítica moderna, onde as interligações entre os espaços se faz por vias metafísicas e espirituais, ao invés da ilusão gerada pela conversão do onírico em realidade. Nessa mesma cena da invasão da casa tem como vontade o exorcismo desse lugar de sonho-mais-que-memória através dum movimento transcendental pro interior de sua matéria prima, para que o filme opere nesse mesmo tom pelo resto da projeção e termine ambíguo novamente, tanto a favor da política que o move quanto contra, ao por a família nesse espaço idílico ainda que tenham salvado a pátria e a mulher tenha sido redimida de sua hipergamia promovida e auxiliada pelo próprio Estado que a treina e contrata, aniquilando tanto o homem que a maestria quanto ao que a persegue e lhe da o rebento, para que ainda se debruce no que a faz rir e ao que lhe da estabilidade.

Referência

O Profano Feminino: Considerações sobre uma Face da Mulher que Ninguém Quer Encarar - Nessahan Alita

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