A necessidade da horizontalidade para a verticalidade.
"Polygon" e "Hercules e Admeto"
Anatoliy Petrov
"O fim é o desdobramento do início e o início coincide com o fim numa relação de dependência recíproca: o em-si é reconhecido como em-si somente no para-si e o para-si torna-se consciente comente como para-si do em-si, sendo um para o outro [für-ein-Anderes], ou seja, há um terceiro como mediação. Ora, se é assim, o fim já está no início, ou seja, desde os tempos antigos a arte já exprime de modo latente seu fim. Cada passagem de uma forma para a outra é a expressão de um fim. Da mesma maneira, o fim é o fim do início, não de uma outra coisa ou algo como um fim de si mesmo. Ele é antes um desenvolvimento permitido somente pelo início." - Werle
Qual a relação da técnica com o sentido moral de uma obra? esteticamente falando e no sentido histórico do termo surgido no século XIX, a moral nunca tem uma relação direta com a obra, mas o que o filme no caso pode transmitir que faça nos levar ao sublime, mistura de sensações que nos tiram do comum. Aqui nesses dois curtas a técnica tem esse principio de abordar os efeitos morais de maneira a posteriori, é ela que leva ao sentido moral. Mas isso se nos preocuparmos somente com a recepção da obra, o momento em que ela é apreciada, portanto a subjetividade que se alcança com esse movimento. Não é esse o interesse quando propomos uma teoria da arte, nesse caso precisamos ir além da modernidade, e como o caso do cinema, entender a pós-modernidade como reflexo direto da construção e estrutura de uma obra de cinema. A filosofia da arte pode nos ajudar nesse sentido, mas o específico da teoria de cinema com sua linguagem se faz mais urgente, mesmo que queiramos alcançar algo além da mera recepção de uma obra, e como é um dos casos de se tratar de uma adaptação de uma história antiga.
Mas não é somente uma história antiga e já conhecida que estamos tratando, mas também um roteiro original, e que pra esse diretor continua sendo o movimento explicitado anteriormente que faz efeito aqui, da técnica levando aos preceitos morais. É de se perceber assim que a nulidade quase pura da técnica faz com que ela mesma possua uma lógica capaz de produzir uma metafisica que opera tudo o que virá a seguir, desde sua imediata produção a recepção. E se o estilo aqui é posto em cheque, da animação única e original rapidamente perceptível a nós, faz com que nos desliguemos do roteiro e dos seus efeitos morais num primeiro momento. Não cabe aqui a descrição de como essa técnica é usada, mas entender o sentido e a capacidade que ela tem de criar a moralidade contida na obra.
No momento em que o roteiro se desenvolve, essa técnica vai se constituindo como linguagem, assim o tempo é de suma importância numa obra, só através da sintaxe linear do cinema podemos traçar uma verticalidade que seja capaz de nos por na recepção e na subjetividade, agora singularizada. Por isso não é importante a nós irmos na recepção antes, pois ficaríamos presos a meros subjetivismos e interpretações rasteiras do que uma obra pode nos afligir. Ficamos assim num quase meio termo entre a produção e a recepção, afinal estamos mais interessados na produção, mas no que essa primeira etapa pode fazer com a segunda ganhe contornos espirituais. A geografia do plano é assim instaurada para que possamos realizar esse movimento. Se em "Polygon" a máquina ganha contornos assassinos e humanoides mesmo que sua forma se mantenha a mesma, é para que percebamos o valor destrutivo e antigo de seu poder, de como ela é entregue a tribo, num duplo movimento reparador e destruidor, o que me faz lembrar os movimento liberais e esquerdistas contemporâneos, afinal, são filmes do fim da união soviética. Já em Hércules e Admeto, o processo é roteirizado de maneira inversa, o mito da força sobre-humana é trazido ao comum para que esse último seja libertado de suas amarras.
Dois movimentos de roteiros divergentes que corroboram com isso introduzido, não é a moral, seja ela movedora ou finalizadora dum roteiro que eleva o filme, mas como a técnica motiva esse roteiro, e ainda mais, permeia ele. Enquanto no filme de 77 ela se faz pelo seu meio mais comum de tecnologia progressiva, do tanque de guerra, arma de ponta e destruição contra o arcaico e pacifica atmosfera daquela colônia, no de 86, é o artífice do logos que faz com que as coisas se realizem, a técnica não como tecnologia progressiva, mas tradicional e de movimento retrógrado, revelando a hierarquia do cosmos. Então não é que a arte tenha um fim em si mesma, que ela tenha perdido seu poder antigo de revelação e contato religioso, mas como a técnica ainda precede e permeia as discussões subjetivadas, mas também morais de uma sociedade, e não somente como tecnologia, mas como artífice e capacidade de produzir um logos próprio.
Referência
Hegel e o "fim da arte" - Raul de Souza
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