Talassocrassia


Back Street 

John M. Stahl

"Expressando-nos filosoficamente desde já, poderíamos distinguir duas imaginações: uma imaginação que dá vida à causa formal e uma imaginação que dá vida à causa material; ou, mais brevemente, a imaginação formal e a imaginação material. [...] É necessário que uma causa sentimental, uma causa do coração se torne uma causa formal para que a obra tenha a variedade do verbo, a vida cambiante da luz. Mas, além das imagens da forma, tantas vezes lembradas pelos psicólogos da imaginação, há – conforme mostraremos – imagens da matéria, imagens diretas da matéria. A vista lhes dá nome, mas a mão as conhece." - Bachelard

Filme é todo construído ao redor de elipses, saltos quantitativos na narrativa que elevam sua potência a um sentido de perda de qualidade. Explico melhor, qualidade não no sentido de juízos de valor sobre a obra diretamente, mas exatamente essa afirmação da potência negativa do vazio conjurado pela elipse, ou seja, o lugar aberto a valorações. Como um sol negro que constrói um cone em toda sua orbita de objetos hierarquizada. O filme já abre nos apresentando a protagonista com seus problemas de relacionamento com homens, no sentido de não conseguir encontrar alguém ideal, a qual tenha uma relação mútua. E vamos perceber ao longo da obra que não é algo que parte de si mesma como imposição de sua autoridade, mas do desfecho social a qual esta inserida. A relação assim acontece por meio da economia, das materialidades que perceberemos ser em si a ferramenta que abre essas fendas na narrativa.

O amante que se desloca para outro continente demonstra bem esse movimento do espaço sendo dilatado e abrindo esse outro espaço-tempo entre os blocos de cenas. O filme é todo construído assim nessa negatividade, não havendo abertura para o positivo em seu sentido qualitativo, mas sempre o negativo. A mulher fica presa nesse jogo, nessas elipses criadas pelo movimento de deslocamento do ponto econômico da temática da obra, tendo mais a frente a representação máxima no simbolo do telefone, na cena em que esse sentido da elipse ganha contornos positivos e qualitativos, ao conectar o casal pelo clássico do campo/contracampo, mas sempre permeado pela prisão desse feminino, pela gravidade dessa atmosfera que nunca é intrinsecamente positiva.

A mulher é assim a que adjunto as elipses são capazes de construir esse espaço sagrado onde o movimento masculino possa puxar e estender esse espaço anterior do plano, como o do em sequência que abre o filme como uma ciranda; a câmera que retorna a atriz após delinear a festa esta querendo reforçar seu protagonismo, não somente como corpo mas também espírito, portanto esse movimento ao qual o homem faz em busca de novas oportunidades é na verdade um movimento anterior da feminilidade em rejeitar esses que não foram capazes de construir algo sólido ao seu redor, que não puderam dar a si esse poder gravitacional de puxar coisas e objetos nessa espiral descendente, nesse movimento do númeno para o fenômeno apenas. É assim que o filme fecha, construindo uma imagem idílica como epílogo e epitáfio sempre nesse contorno superficial e sofisticado da imaginação pronta a construir esquemas ideológicos.

O diretor não quer aqui construir essa forma mais qualitativa do positivo por entender o poder do drama que esse negativo carrega, é o sentido judaico-cristão que Nietzsche nos alarmou (que será o entendimento dos franceses pós-modernos ao traduzir a vontade de poder, para a vontade de potência como citado acima) do capitalismo anglo-saxão e maçônico como ápice desse movimento religioso anterior, e que põem todo seu esforço e operações psicológicas nessa segunda qualidade do feminino, rebaixando o masculino de seu vértice em conjunto, em toda sua simbologia da água sobre a da terra, mesmo que a solidez desse segundo elemento nos entregue vastas metáforas, com a ainda profundidade sinistra e devidamente hermética da água a nos dar especulações através de suas refrações hiperparabólicas, iluministas e ainda desconhecidas, sendo consolidada agora na verdadeira idade das trevas, em também consequências nominalista e atomistas. 

Não é que vivemos numa sociedade racional por assim dizer, mas é perceptível com isso tudo, que essa trama possui uma lógica, mas que não tem de nada de racional, pois a imanência identitária que ela cria impedido a construção de sentido que possa faze-la se libertar daquela relação como toda a sequência das cenas com a vizinha demonstram, da contradição & conspiração gerada pela própria luta de classes, conjurada pela mulher moderna nesse aceleracionismo que não abre outras fendas, espaços-tempo para que ela possa metaforizar, a não ser através da morte individualizada, um suicídio assistido pela sociedade. E mesmo que isso não nos queira revelar ainda uma vertente especifica do próprio capitalismo como sendo exclusivamente materialista, mesmo que a parcela que o comande em seus planos cartesianos seja assim dessa forma, pois afinal é a imanência gestada por esse movimento duplo e de ambos que operará essas relações.

Referência

A metáfora do mar. - Fernando Góes

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