Poder do roteiro
Taxi Hunter
Herman Yau
"(...) certo de que não era verdadeira a doutrina que estes homens pregavam. Fugia deles com a alma, porque, quando eu indagava a origem do mal, via-o repleto de malícia que levava a crerem antes sujeita ao mal a Vossa substância do que deles ser susceptível de cometê-lo." - Agostinho.
A atomização que o cinema entrega por seu realismo essencial, confunde seus espectadores de forma críptica, carregando-o para fora da própria obra. Os males da poieses. A negatividade assim do ponto de vista mais que moderno, não como um sistema que se fecha e nos entrega modelos, mas uma reação a própria realidade que filma, no caso de cinema. Então o positivo se desloca para o interior, delimitando e entregando essas padronizações típicas de séculos de ciência. Qualquer leitura que façamos desse Yau se tornam rasas se partimos assim desse ponto. Precisaríamos nos tornar positivos perante a ela, para que não sejamos lançados ao extracampo de sua poética. Afinal não é que existam justificativas para as atitudes daquele personagem que acompanhamos, mas como atomizado, minimalizado, sempre entregará a simbologia dessas relações mais próximas. O que cria um certo paradoxo nessa interpretação, pois, primeiro ao se ater a essa microscopia perde-se o real motivo de sua criação levando o espectador a transcender a obra sem antes tocar seu terreno. Não é assim uma verdadeira transcendência, diminuindo o próprio sentido da obra de arte.
Tem algo a mais do que maniqueísmo nessa imanência que aos olhos pessimistas servem como uma racionalização dos fatos que acontecem através da encenação. Porque ao estar fora do filme se fundindo ao seu extracampo, não consegue almeja-lo. Por isso o movimento ao interior da matéria por meio de esquemas e de um certo idealismo transcendental ser necessário para assim poder ir de encontro com esse extracampo, que agora, com certa distância, poder ser melhor interpretado. Como exposto acima, não é que aqueles acontecimentos se tornem fatos para a construção dum protagonista passivo-agressivo, mas demostrar através de seu devir minoritário, uma força que é engrenada por outras forças, uma consequência de outras causas. Logo, a relação do protagonista não é diretamente com o sindicato de taxistas por inteiro, mas de forma escalonada e hierarquizada, com alguns taxistas sem éticas. Obviamente o poder do roteiro nos faz chegar a esse ponto, para que o filme possa ganhar impulso, sair de uma inércia para cair em outra, ou que veio ser cunhado como cinema de fluxo, que tem no Oriente seu principal mote.
Fica mais claro o paradoxo, que a hermenêutica cria na análise de filmes, por ser uma arte que ainda engatinha pela sua inocência. Oras o poder de uma de suas peças faz com que toda sua trama extracampista se volte contra si mesma, ao mesmo tempo que é esse lugar transcendente e que pode resolver esse impasse, portanto a negatividade que outrora do ponto de vista pós-moderno era o próprio realismo, ou seja, a gravidade que molda os sistemas por exemplo, passa ser o produto e a criação interior desses, só para retomar por efeitos didáticos essa sentença. Não é que nosso protagonista seja então psicologizado por um único fator, mas ele é o próprio filme em si, esmagados por essas forças além de sua própria relação direta com a má conduta de certos trabalhadores, mas a posição histórica de seu próprio realismo como filme diante de obras anteriores e posteriores tanto poieticamente como a de Scorcese, quanto a teoria e a práxis humana no mundo, e ainda as tentativas de Xiaoping em lidar com os anglo-saxões.
Referência
Santo Agostinho contra os maniqueus: considerações sobre o conceito de ortodoxia e heresia em Confissões. - Francisco Ferreira
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