Confluência de inúmeros pontos de vista.


 The legend of boggy creek

Charles B. Pierce

"A floresta na geografia sagrada é similar às montanhas num sentido claro. O simbolismo da árvore corresponde ao simbolismo da montanha (ambos o primeiro e o último designam o eixo mundial). Portanto, nas telurocracias a floresta também exerce uma função secundária, como ela também é o ‘lugar dos sacerdotes’ (os druidas, os magos, os eremitas), mas também ao mesmo tempo o ‘lugar de demônios’, isto é, resíduos arcaicos de um passado desaparecido. Deste modo, a floresta não pode servir como o centro de um império terrestre." - Dugin

A delimitação que se impõem quando lidamos com geopolítica, o sentido terreno e geográfico que permite a elevação de espíritos, ontologias e metafisica. O filme deixa claro de maneira topográfica como a floresta circunscreve o vilarejo, o que me lembra algo além do que comumente se relaciona através da forma esse filme, não sendo a "Bruxa de Blair", mas "A Vila" de Shyamalan. Afinal não estamos exatamente dentro do controle dessa mitologia que se cria, o monstro não esta na forma como no foundfootage citado, mas revolve o enquadramento. Assim devemos classificar esses dois aspectos, que a princípio parecem semelhantes. Como há uma divisória clara entre o espaço do monstro e o espaço dos humanos em "Boggy Creek" e "A Vila", há também o quadro de cinema como uma metáfora a isso, diferentemente do clássico mais moderno em que essa divisão extrapola a imagem, inclusive de seu fora de quadro e contracampo através da convenção de seu próprio gênero e estilo.

A confusão espectadora esta quase clara na postura do filme analisado nesse momento, pois o diretor nos engana com esse sentido quase documental, principalmente pela narração em off, mas também por certos movimentos que a câmera faz, em que certo momento numa cena específica parece estar empunhada. Evidente assim como o sentido histórico, e do avanço tecnológico molda a relação narrativa com a matéria diante de suas lentes, a tecnologia em confluência com a substância fílmica. O cinema nos revela assim sua principal faceta satânica, a possibilidade de convergir técnica e natureza. O sentido aqui, é claro o de técnica como metafísica e antiarte, o que é uma contradição para a própria ferramenta da filmadora, enquanto mais tarde essa empunhadura se torna de forma extensiva ao corpo humano, ainda na década de 70, as câmeras é que escravizavam o corpo de maneira mais tátil, não apenas de um dispositivo móvel, por vezes até invisível. A questão é que para Pierce, essa relação entre o invisível que vai além do nosso corpo e nos escraviza de maneira mais espiritual, já estava sendo produzido na época desse filme, por mais limitado que os movimentos ainda pudessem serem feitos, sua genealogia estava ali, o digital já estava no alcance. 

Isso nos demonstra outra coisa, o sentido linear do progresso contra as curvaturas da tradição, da permanência do devir. O intuito de a "Bruxa de Blair" já estava ali sendo gestado, corroborando com a confusão feita na leitura de alguns, mas que é incitada no seu cerne metafisico e tradicionalista, retomando o sentido da técnica naturalizada, o artifício do cinema menos comercial. A dificuldade que esses filmes terão diante desse processo histórico é então como elevar sua forma diante do próprio aparato que o consagra e o totaliza de maneira identitária ao seu estilo naturalizado. Retomando o problema inicial onde a semelhança com o Shyamalan se faz mais evidente, onde o estado sublime não tem necessidade de se esforçar para que a miríade de campos e contracampo aconteça, até mais no indo-americano do que nesse nato, afinal, como argumentado o sentido místico da câmera extensiva ao corpo já estava aqui, destituindo o sentido mais clássico da sintaxe e seus efeitos humanísticos kuleshovianos de cortes e edição, assim os pontos de vistas se assemelham dum modo como se a câmera estivesse acompanhando o personagem, um tanto semelhante ao que Van Sant fará no ápice do cinema de fluxo, de maneira emprestada de uma experimentação inglesa na impessoalidade dos finais dos anos 80.

Referência

Da geografia sagrada a geopolítica. - Alexsandr Dugin

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