Tradiçao contra modernidade.


The gunfighter

Henry King

"São necessárias, pelo menos, duas séries heterogêneas, das quais uma será determinada como “significante” e a outra como “significada” (...); 2. Cada uma destas séries é constituída por termos que não existem a não ser pelas relações que mantêm uns com os outros. A estas relações, ou antes, aos valores destas relações, correspondem acontecimentos muito particulares, isto é, singularidades designáveis na estrutura (...); 3. As duas séries heterogêneas convergem para um elemento paradoxal, que é como o seu “diferenciante”. Ele é o princípio de emissão das singularidades. Este elemento não pertence a nenhuma série, ou antes, pertence a ambas ao mesmo tempo e não pára de circular através delas." - Deleuze 

A imagem como receptáculo do que é ao mesmo tempo dentro e fora, criando uma tensão que corrobora com a força do princípio cinematográfico, a de que é a imagem em movimento que fundamenta e faz a essência dessa arte. Então não é que a imagem por si mesma, remetendo a fotografia, que fará com que essa arte seja lançada ao status mais independente, algo com uma linguagem e teorias próprias. Se em um filme como "The Thing" lançado na mesma época que faz uso do extracampo como metáfora e motivo do movimento do filme, aqui nesse o extracampo é na verdade a lucidez do próprio cinema, ou seja, dessa imagem em movimento personificada por Gregory Peck, a se fazer tanto o extracampo contextual, quanto o enquadramento em si mesmo, isso conjura ainda o terceiro termo do fora de quadro, que é a questão fundamental aqui nesse faroeste.

O movimento genuíno de planos e contra-planos que catapultam a história do cinema, principalmente com os soviéticos e o efeito de produzir um terceiro significado dialético desse choque entre imagens, faz com que o fora de quadro se naturalize como estrutura narrativa do cinema, oras a antítese do plano é sempre um fora de quadro, que pode remeter ou não a um extracampo e ainda ser de forma direta ou indireta. Nesse do Henry King, esse extracampo que revolve a narrativa esta sempre permeando o plano originário do cowboy, transformando-o numa entidade. Isso faz com que o sentido linear e clássico de se contar história nessa arte retorne a um princípio ainda anterior a esse sentido da narrativa clássica, aos primórdios do cinema e de seu sentido documental, que vai ter num artista como Méliès o principal artífice dessa questão do plano originário que contem a tríade tanto do contra-plano quanto do fora de quadro e o extracampo.

Assim nos momentos de close no nosso protagonista, forçam a esse entendimento em maior potência desses elementos que orbitam o quadro de cinema como uma espécie de documento genealógico, e aqui no caso, desse espectro do fora da lei na história estadunidense. E mesmo quando o enquadramento se abre, é na verdade para isolar esse protagonista numa imensidão ainda maior da encenação que irá abranger não somente toda essa sintaxe mais abstrata e fantasmática que o cinema propõem em suas linearidades e linhas de fuga, mas também a teatralidade de seu fundamento, tendo na cena de assassinato a revelação máxima dessa confluência entre a questão documentária e originária, com o espaço teatral que o enquadramento promove; só nós vemos o real assassino, escondido por uma escolha estética, em que carrega consigo a discussão que esta sendo posta pelo diretor aqui, a de chamariz da própria força e poder anti-potência que o cinema carrega em seu intuito, a qual os tradicionalista sempre recorrerão contra, ao menos em suas criticas espirituosas contra a derradeira máquina moedora de espíritos da modernidade, pois de forma prática, uma das principais armas de produção de imagens já esta mais que consolidada, e sim fecunda nossa própria cognição e o modo como enxergamos e concebemos o mundo. Onde se encontraria o mal nesse caso, dentro ou fora do cinema? É o aparato em si ou oque ele produz? Do intuito contra a intuição? Questões em aberto que serão respondidas ao percorrer de outros textos daqui em diante.

Referência

Deleuze e a lógica do sentido: o problema da estrutura. - Alessandro Carvalho.

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