Savoir-faire.
"Namai"
Sarunas Bartas
"Quanto ao discurso, afirma, ele se constitui a partir dos objetos que nos chegam do de fora, isto é, das coisas sensíveis. Pois é do encontro com o sabor que se forma, em nós, o discurso que emitimos sobre esta qualidade, e da incidência da cor, o discurso sobre a cor. Assim sendo, o discurso não é “comemorativo” do de fora, é o de fora que se torna revelador do discurso." - Gorgias
Não é que certos filmes são difíceis de analisar enquanto outros são mais fáceis, e que isso esta atrelado diretamente ao sentido da narrativa do objeto em questão, ou seja, quanto mais linear e padronizada no sentido hegemônico e hollywoodiano, mais fácil é entender e acompanhar o roteiro, enquanto essa narrativa mais lenta e truncada aparentemente é mais difícil. E aqui no sentido de análise as coisas se mostram ainda mais complexas, pois não passa de um entendimento qualquer que permeia o assistir da obra, uma interpretação subjetiva e reflexiva perante a experiência, mas uma hermenêutica em busca da verdade.
Entraremos assim numa digressão, e no levantamento do que é a verdade em seu sentido filosófico diferenciando do sentido dogmático e psicológico. Mas sem esquecer do filme, o qual se utiliza bem desse ponto de vista mais subjetivo e psicológico do suposto personagem principal, pois é através dele que a câmera toma as direções do ponto de vista. E aqui é necessário também a diferenciação desse subjetivo ao ponto de vista. Obviamente o filme não se passa dum plano subjetivo em seu sentido mais direto e comum, da câmera que adentra na psique do personagem conjurando imagens para uma nova encenação com espaço e tempo próprios, mas de maneira indireta, saindo da narração em off, abrindo o filme, ao mostrar a mansão pelo lado de fora, para diretamente sermos jogados para seu interior, movimento semelhante que só irá se repetir novamente na conclusão da obra, com um certo adendo importante que concluirei mais adiante noutro argumento.
Filme se passa assim maior parte nesse interior da casa, metaforizando a subjetividade desse nosso protagonista, correlato que como vimos em textos anteriores, sempre carregar uma representatividade mais lógica através duma metonímia que esta contida dentro dessa metáfora construída aqui, a passagem pelos cômodos e os encontros com outros personagens, sempre através desse olhar que direciona a própria câmera e nunca pelo diálogo falado. A metonímia é essa casa fragmentada, velha, caindo aos pedaços, com encontros também decadentes, assim como nosso protagonista que se arrasta ao longo da imensidão desse mundo. Forma-se assim o paradoxo que essas figuras de linguagem carregam entre si, de refletirem mutuamente uma a outra numa geometria diametralmente oposta, criando um devir que preenche o sentido de imanência absoluta e simulacro, coisas que só poderiam ser concebidas no cosmopolitismo duma época pois-moderna como essas.
Portanto é simbolicamente a metáfora perfeita que consolida e abriga o próprio estilo art-house do cinema europeu e que terá correlatos diretos com o cinema americano mais independente e contemporâneo. Não como reação ao grande cinema, mas apenas uma continuidade. E por mais que gênios do grande cinema estejam preocupados com a linguagem cinematográfica em si, e não com psicologismos sem um sentido mais hermenêutico, mas de superfície de roteiro e narrativa consequentemente como um mero desenvolver da história a ser contada. Nesse "Namai" é a própria psicologização que move a técnica, ela esta intrínseca no âmago do que podemos pensar assim como história. Então não é que estamos diante dum filme difícil de se analisar (a não ser que nos acomodemos com o hábito que nos cerca como indivíduos) mas sim diante dum esquema invertido de imagens e processos de imaginação de outras realidades. E invertido em comparação a produção imagética e hegemônica da grande indústria, constatação fácil de se fazer por uma subjetividade já colonizada e arraigada pelo senso comum antirrevolucionário. E é por isso também que o diretor traz essa decadência que é reafirmada pelo retorno da voz em off, sendo que agora com o adendo dessa mansão sendo cercada pelo exército. Do paradoxo do cosmopolitismo metaforizado e metonimicamente sendo trancafiado por um sentido político ainda maior que supere sua sofística.
Referência
Vestígios da antiga sofística em Jacques Derrida - Lucio Salles
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