Realismo como insuficiência geopolítica.

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Undine

Christian Petzold

 "Essa pode ser uma arte muito perigosa. Grande parte do surrealismo está designado de maneira inadequada, na realidade. Sur, do Francês e do latim, significa acima, e esta arte, por certo, na sua maior parte, não está acima do realismo: é um sub-realismo. Se nós chamamos de realidade o estado desperto comum – e esta é uma definição filosófica aceitável do real, embora, é claro, em ultima instância, o real não seja isso – e se denominamos de realismo uma arte que é uma emulação das formas externas da natureza – como as pinturas de Ingres ou da famosa escola clássica do século dezoito – então nós temos dois mundos: um que está em cima e outro embaixo. Há o que está acima do mundo físico – o mundo espiritual – e um mundo sub-realista, dos subelementos da psique, onde, na verdade, se acumula todo o lodo da lagoa, ou seja, os elementos mais negativos e, quase sempre, mais perigosos da psique humana." - Nasr

A cidade para Petzold tem bastante importância nesse filme, primeiro como lugar demarcado com cada espaço exercendo suas funções de maneira bastante ordenadas, o museu, as estações de trem e metro, a cafeteria, o apartamento, e o lago; e segundo como lugar-de-tempo, e tempo no sentido de mistura de espiritualidades, de confluência de seres e culturas, tanto passadas como presentes. Ha assim uma resistência nessa cidade de fazer com que o progresso avance sobre a tradição. Undine é a personagem que enfrenta isso, e o diretor se utiliza muito bem de sua frontalidade para construir a relação dela com essa ambientação hostil ao próprio sentido de materialidade incapaz de se ter com o cinema em si. Mesmo que os artistas dessa linguagem acreditem e continuem exercendo-a, Petzold demostra claramente que é por meio de um anti-realismo que estamos mais interessados tanto como espectadores que auxiliam o mantenimento das obras, como representado pelo mergulhador industrial, quanto a própria superfície da imagem, que se reflete de forma paralela a maquete, mas somente diante de Undine, e isso fica bem claro mais a frente quando sua supervisora toma as rédeas desse trabalho, tecnicizando-o.

O paradoxo esta traçado então, no momento em que buscamos um ati-realismo vamos em direção a um realismo mais cru, esse ontológico que vem antes da câmera a qual chamamos materialidade, a cidade sem uma maquete que a represente de maneira sucinta e minima, ou ainda mediada de forma automática e robótica por outros, e que sejam talvez não-seres, para que possamos diante dela imaginarmos outras possibilidades de seres, de materialidades. A relação mais direta assim com esse progresso que esta diante de nós como a mansão pós-moderna do amante, lugar que revela a dicotomia entre o assassinato mais que real, ou melhor, antirreal, e o suicídio, esse sim realista sendo jogado para o fora de quadro. Por fim o diretor quer nos por junto com essa disputa, entre o realismo que o cinema já impõem em si mesmo contra a sua materialidade substancial e a priori. O feminino e não somente a mulher, nesse sentido colateral entre maquete e a sua cidade, terá o papel importante aqui como resistência, como essa materialidade que ficou tanto no a posteriori quanto no a priori, tendo a arte como verdadeira mediadora desse realismo mais totalizante, que, repito, deve ser estripado como valor estético se quiser construir sociedades mais belas e morais, sem esse realismo sub-reptício que a principal arte contemporânea cria.

Obs: texto escrito sob influência do debate de a "Odisseia" do Nolan.

Referencia

Entrevista de Seyyed Hossein Nasr para Jeffrey P. Zaleski

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