O sentido do extracampo.
The thing from another world
Christian Nyby, Howard Hawks
"Faríamos bem em compreender o que se entende por conceito de tradição, uma vez que este é geralmente negado, deturpado ou mal compreendido. Não tem nada a ver com cor local ou costumes populares, nem com curiosas atividades locais coletadas por estudiosos de folclore. Está relacionado com as origens: a tradição é a transmissão de um complexo de meios estabelecidos para facilitar nossa compreensão dos princípios imanentes da ordem universal, uma vez que não foi concedido à humanidade compreender, sem auxílio, o significado de sua existência" - Benoist
Fica evidente aqui a diferenciação entre o transcendente e o transcendental principalmente em relação a refilmagem de Carpenter, ao ser comparada a dimensão universal que cada obra carrega, até mesmo pelo sentido quantitativo e qualitativo. A filosofia perenialista assim será de grande importância para justificar a relação entre esses dois conceitos na história da filosofia. E justificar no sentido de por em equilíbrio, fazer justiça, sintetizar a dualidade que é gerada nesse embate. Pensar esse filme de maneira isolada sem o seu contexto histórico e mais contemporâneo do cinema não condiz com a própria forma a qual o filme original trabalha justamente, e aqui novamente o juízo alquímico da síntese jurídica, pois a obra em questão se utiliza principalmente do extracampo para se mover.
Comecemos pelo transcendente, por ser aqui o originário no que concerne a história da filosofia e ao filme principal, pois com ele percebemos isso como exposto acima, sobre o extracampo suprir um papel importante para sua narrativa. Fica clara agora essa relação do que esta exterior puxando e fazendo mover isso que permanece em seu interior, afinal é do imanente que o transcendente surge, se nos posicionarmos dum ponto de vista mais arraigado ao material, todavia é justamente desse lugar mais terreno a qual o transcendental irá surgir. Então se o transcendente é a própria reação à matéria que insiste em magnetizar o espírito, e aqui isso se da por meio do extracampo ao contextualizar o filme de forma correlata por metáforas, o transcendental faz o movimento inverso, e aos buscarmos num outro extracampo pós histórico a esse filme trabalhado nesse exato momento, desimpedindo o conceito de tempo em seu sentido intuitivo e empírico para podermos sair da origem e traçar paralelos mais metonímicos e portanto mais lógicos, conseguimos alcançar o entendimento de que é pela refilmagem que o sentido do extracampo se consolida com veremos a seguir.
O extracampo, evidentemente não é em si o fora de quadro apesar de abragê-lo de maneira transcendente como uma reação a imagem enquadrada, mas algo além, que alcança a pós produção, e que por meio da hiperespeculação podemos lançar o sentido histórico que permeia a obra, e assim posteriormente traçar esta força que liga o filme distante no tempo para conversar. Enquanto o primeiro se mostra mais massificador nos ditames da imanência moderna, pós segunda guerra mundial mas ainda na transição para a atomização que a televisão irá nos entregar, o segundo já perpassa pela transição de um outro processo de atomização, que é esse retorno promovido pelo transcendental ao sentido da origem imanente, gerando na história do pensamento, o humanismo; mas que com Carpenter se mostra como um processo mais radical de individuação. Não entrarei nos detalhes comparativos entre esses dois filmes, por falta de tempo e espaço, mas também para não me perder da análise do objeto original em si.
Portanto esse extracampo é na verdade a ferramenta utilizada pelo diretor para atingir o universal de maneira mais unificada, diferentemente do que Carpenter fará mais a frente na década de 80, ao subjetivar e até diminuir o grupo em sentidos quantitativos como correlato também a qualidade valorosa de seus filmes, que como escrito não adentrarei em méritos aqui, mas que como argumento também extracampista serve para elucidar esse movimento centrifugo do transcendente ao traçar a genealogia das forças em questões nesse filme de 51. Sendo o filme base muito mais apelativo à democracia, e a capacidade de resolução que o diálogo pode carregar ao mesmo tempo que delimita de uma vez por todas a diferença entre imanência e materialismo, enquanto a refilmagem já ser mais pessimística ao desenvolver esse movimento de retorno como substancialmente materialista desvelando a farsa da própria democracia. Ainda que no primeiro a ciência é descartada ao se bater diante do desconhecido, mas que organicamente esta mais que presente através desse contexto anti-contra-plano e anti-fora-de-quadro, por entregar sua força a esse exterior tanto extraterrestre e aliem quanto o contexto geopolítico de seu entorno pós-produtivo, demostrado pelas cenas de interações entre os indivíduos em planos abertos ao mesmo tempo que americano, o segundo já investe numa atmosfera mais claustrofóbica de embates de superfície psicológica.
Referência
Gnose ativa e passividade mística: êxtase e iniciação no pensamento de René Guénon e Julius Evola
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