O marxismo já é um antimarxismo? A substância e o sincretismo.
The lighthouse
Robert Eggers
"ao definirmos um membro de uma outra qualquer categoria devemos incluir a definição da substância subjacente. Com efeito, se pretendemos conhecer algo pertencente a uma categoria diferente da substância, temos de perguntar, não pelas suas qualidades, etc., mas pelo que ela é, pela sua quase-substância, pelo que a constitui tal qual como é." - Ross
Estava buscando coragem para ver algo novo desse diretor. Em a Bruxa, filme visto na época do lançamento, já havia percebido sua intenção art-house no sentido de busca de público e captação de almas, mas também não somente em seu estilo artístico. Essa certa preocupação humanista que seus dois primeiros filmes abordam apenas de maneira contextual, abrem espaço para o desenvolvimento do tecido conceitual como é bem desse estilo; filmes que são delineados por um dogma que oprimem a matéria fílmica no intuito de esculpir a obra, fechando em espaços que deterioram o próprio contexto cinematográfico e da sintaxe dessa arte, como dito anteriormente em outras oportunidades por aqui: o plano que projeta uma certa linearidade empírica, e que faz orbitar em si toda uma miríade coerente a sua origem enquanto plano cinematográfico, a mise-en-scène afinal. Esse estilo de filmar que remete ao leste europeu tendo em Von Trier a principal metonímia, que reforça todo o processo lógico e industrial dessa arte revelando que ela e essas questões não são somente lógicas de uma certa geografia como a hollywoodiana, mas o intuito do cinema em si, discussão importante sendo retomada a todo vapor agora através das IAs: a tecnologia é má por essência, de intuito em sua concepção, ou pelo seu uso a posteriori e político?
Essa metonímia que carrega o estilo de construir o que chamaremos também de mise-en-scène por questões mais práticas, e que tornam o processo mais frio da narrativa, burocratizando a vizinhança do plano, terá dessa forma sua força ancorada pelas atuações. Pois a tal encenação autoritária dessa lógica, atomiza tudo de maneira que só resta o ator para que as coisas realmente possam fluir além da estática da imagem em movimento traçando um embate direto e tendo como exemplo mais crasso disso em "Dogville" e "Viagem a lua" de Méliés, por exemplo. Enquanto no francês o plano de cinema é único no sentido quantitativo e consequentemente qualitativo, essa unidade constrói assim o sentido de mise-en-scène como Bazin nos entrega, para que num filme como esse do Eggers ser levado as últimas consequências como saída e não partida para outra instância como um extracampo poético que corrobore com interpretações múltiplas e sem sacadas metafóricas que entrem num processo de coerência e simulacro pairando no ar, como os marxistas mais ortodoxos diriam.
Mas estamos em século XXI, Méliès esta distante, até mesmo do marxismo mais ortodoxo que não chega perto aqui, a substância condensada por esse conceito mais enrijecido, que antes em "'A Bruxa" só conseguia ir até a malha extracampista dum feminismo, aqui ele se prende e se embola no trabalhismo afeminado (dum pedetismo à brasileira?) e esteticamente serve mais ao desenvolvimento dum ego mais superficial pela escolha principalmente do p&b, forçando um claro-escuro que não tem pretensão alguma de dualismo mais metafisico, mas a criação de dicotomias empiricistas retomando mais uma vez a tensão entre as duas atuações ainda que a psicologização desses personagens se faça clara como exercício exaustivo de uma ciência mais pura e dura, nos mostrando a total impossibilidade do próprio materialismo em tentar conter a substância.
É antes de tudo e por tudo isso um filme bastante religioso, mas mais por insegurança de que o material fuja de controle do que uma abertura poética, de religações alienígenas e extraterrenas no que concerne ao cinema e suas permissivas hiperespeculatórias; e ao reduzir a imagem em movimento ao histrionismo das atuações num espaço insalubre e opressivo, resgatando a mitologia da virada do seculo XIX pro XX, contra-argumentando a si mesmo com a impossibilidade da estruturação do ceticismo, e da sua própria falta de progressividade, ao ciclar o devir numa auto-fagocitose dum ouroboros alquímico. O filme fica se remetendo e referenciando a si mesmo o tempo todo, e ao seu público mais fiel ao simular uma certa teatralidade, mas não como se o cinema estivesse sendo usado para representar essa teatralidade como nos primórdios dessa arte, mas como posto anteriormente, uma metonímia mais purificada como uma metacrença que se desprendeu da própria substancialidade do cinema como origem, criando uma materialidade aversa ao sentido de matéria mais bruta, fazendo do extracampo um joguete propagandístico-político como foi feito no seu filme anterior.
A nova chance dada por mim a esse diretor foi mais através de um certa parcela dos tradicionalistas ovacionarem o "Northman", e por eu perceber que exista aqui um meio termo para se chegar a esse terceiro filme, o que descobriremos nos próximos capítulos desse blog. E também para exercer melhor minha forma burocrática opondo-a a burocracia mais dis-simulada desses esquerdistas. E mesmo que aparentemente haja essa contradição de repelir o marxismo ortodoxo ao suspender o filme num simulacro psicanalítico a principio dum pai devorando o filho, e que como segunda camada das intempéries do trabalho na segunda aurora do capitalismo, o filme constrói uma ciência própria em seguida, ao se distanciar da matéria mais bruta para um suposta substância mais pura, sintetizada & sincretizada.
Referência
O conceito de substância na Metafísica e nas Categorias de Aristóteles - Paulo Castro
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