Kantismo contra nietzschianismo.
A ghost history
David Lowery
"[h]á aqui, pois, um certo mistério, cujo descobrimento tão-só pode fazer seguro e digno de confiança o progresso no campo ilimitado do conhecimento intelectual puro; a saber, descobrir, com a universalidade apropriada, o fundamento da possibilidade dos juízos sintéticos a priori, penetrar as condições que tornam possível cada espécie, e ordenar todo esse conhecimento (que constitui o seu gênero próprio [eigene Gattung]) num sistema, englobando as suas fontes originais, divisões, extensão e limites, sem se restringir a um esboço rápido, mas determinando-o de maneira completa e suficiente para todos os usos." - Kant
A capacidade de extração do que esta por fora do plano é transformada por David Lowery em algo que constrói não somente esse totem que perdura na tela, da imagem que nossa cognição capta como primeira ordem, mas todo o entorno da trama que se passa diante de nós. No entanto isso só é trazido de forma contida, e aos poucos vai se mostrando como uma capacidade metafisica e teorética.
A casa tem relação direta com essas questões, o sentido cabal do próprio estilo mais dogmático de filmar conceitualmente é posto em evidência aqui, mas como disse antes, num primeiro momento cognitivo, algo que o filme irá brincar constantemente. Esse plano mais frontal conjurado pelo fantasma, e que toma dianteira em relação ao plano a qual permanece como a realidade a qual estamos inseridos, mas que em relação ao protagonista é um extracampo, por tanto para nós também será, pois é de seu olhar que o nosso é direcionado. Nesse sentido o que esta no quadro em questão de volume e portanto quantidade, desde a mobília da casa até outros atores são para nós um plano adverso, um "mas também" ambíguo. O plano que vemos é ao mesmo tempo soma e subtração: soma pelo seu viés mais comum dessa nossa primeira vista cognitiva e subtração pelo ponto de vista do protagonista que também é o nosso.
O extracampo dentro do campo que esse nosso protagonista conjura em tela é dessa forma algo que ultrapassa nossa mera compreensão normal, portanto o diretor irá se utilizar de antemão do melodrama para fundamentar a lógica desse seu filme. Pois é pelo melodrama que a dualidade fica mais explícita, e é com os platônicos que isso será melhor resolvido, do vai e vem de seus diálogos para construir uma síntese que carregue o significado dum conceito, mesmo que esse conceito se mostre vago, e em aporia, pelo menos teremos um vislumbre dele, um caminho traçado para começar a pensa-lo. É por aí que o diretor quer que nos caminhemos, através do protagonista para o extracampo que é na verdade o campo em si mesmo.
O momento então que o filme deixa aquele ambiente metafisico da casa para traçar um sentido mais imanente, ou seja, transcendente em si mesmo tal como o plano de cinema que nós é apresentado anteriormente, sendo conjurado diante de nós pelas vias do protagonista, é levado as últimas consequências, mas só que pelo sentido transcendental desse subjetivismo radical para fora da própria metafisica a priori. Essa quase concepção pitagórica e metempsicótica ao revelar esse plano transcendente pela imanência que aparentemente se mostra como um eterno retorno, mas que pela sofística da sintaxe cinematográfica é na verdade apenas um devir de espaço-tempo. Explico melhor, não é que a história esteja se repetindo, e que aquele local onde a casa, ou melhor, a metafisica esta sendo edificada, seja amaldiçoada, mas uma resolução do próprio roteiro de simular eventos históricos como uma linearidade que se acomete pelo erro teleológico. Diferentemente das fendas que se abrem pela repetição criando diferenciações, algo que Chaplin fará bem em seu cinema até como duplo do ditador, ou os tiques nervosos que se tornam cômicos através da industrialização moderna. A repetição aqui não tem vez, mas sim a atomização das supostas curvas que o tempo faz, as suas dobraduras esquemáticas e subjetivadas. Encenemos, todavia contrariando os nietzschianos, de maneira mais profunda possível.
Referência
Kant sobre o problema do sistema e o método da filosofia - Adriano Perin
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