Sobre a singularidade do frame.


Gaav

Dariush Mehrjui

"De fato, o que é rejeitada é a distinção dicotômica entre conhecimento do mundo e semântica linguística. A distinção entre a semântica e a pragmática é na verdade a distinção entre conceptualização (memória permanente) e uso (processamento na mente). Os resultados das pesquisas relacionadas à Semântica de Frames transcendem as fronteiras da Linguística tendo impacto em outras áreas do conhecimento, tais como o Processamento da Linguagem Natural (PNL), a Psicologia e a Inteligência Artificial. Notadamente na área do PNL, destacam-se as pesquisas de busca de informação com uso de corpus para análise de texto para identificação de cenários associados, tradução e inferência textual." - Moreira

O que sustenta uma sociedade se não a própria instância do abandono, a dimensão da perda e do que esta além dos limites, das fronteiras, isso que organiza o que permanece no centro. Essa permanência é o sentido do próprio devir, ou o que os neo-conservadores estão pautando agora como o eterno feminino, mas que como joguete político serve apenas como negociata para impor uma espécie de feminismo mais "natural". O que isso tem a ver com o filme em questão? É por assim dizer, o que ocorre aqui, a substituição de um totem por um outro mais vazio ou ainda a vontade de metamorfosear-se num totem propriamente e que se faça como fundamento.

Assim tudo o que se passa por fora, as redondezas daquela vila, desde o trio que parece ao mesmo tempo resguardar e saquear aquele lugar, ao grupo maior e religioso que visita um templo nas cercanias reforça o sentido político que permeia a obra, disso que tenho escrito por aqui no blog como cerne do que o move, a teologia e a teleologia não tem somente como fim a politica, mas é ela em si mesma, oras, o que permanece como centro, e pela força gravitacional atrai essas outras menores forças nas suas orbitas e redondezas. Retomando esse ponto do suposto eterno feminino que permanece mesmo que as intempéries de qualquer cultura venha desfalecer e outra ressurgir de maneira inventiva ou sincretizada.

A vontade do abandono sempre ressurge dessa forma daquilo que não pode mais se sustentar por si só, esse que permanece por ser em si mesmo também um devir, algo que se adapta e é moldado pelo seu entorno, não poderá por si mesmo se manter, mas por fantasmas e memórias que deem um sentido para sua existência enquanto fenômeno, pois a própria memória com suas fantasmagorias também é fruto desse que permanece e não consegue se alterar como sentido, mas se e somente se como pura alternância em constância. Logo, quando a busca pela metamorfose desse totem que é retirado do centro, e que também se perde além dos limites daquela vila, precisa ser reorganizado por esses que ainda permanecem não somente como devir, mas agora como destruição, do eterno feminino por si só, ou seja, como feminismo por conta própria, como um refino industrializado desse primeiro e dissimulado transcendente. A cena derradeira representa ainda esse resquício de forças que sobram dessa substância, do homem que blefa e diz ir em busca da metamorfose totêmica enquanto deixa para trás a mulher como gênero por si só, como construto social que não permanecerá nesse devir sem algum sentido mais.

Não a toa ser um filme iraniano, ainda que a revolução dos aiatolás não tenha acontecido, demostra aqui essa maturação no que condiz em assuntos políticos, mas também linguísticos, afinal a obra consegue se manter primeiro como drama social passando por terror em sequência, principalmente nesse momento da metamorfose mimética do novo totem que é mais uma afirmação do destino traçado pelo mistério dos esquemas da subsunção do que uma escolha estética do próprio diretor, terminando como tragédia e revelando assim seu sentido mais forte e teológico de construção de imaginário através, Justamente, desse sentido espelhado da memória, demostrando uma certa linearidade do tempo como o ato cinematográfico mesmo nos induz, mas só através de um ponto atomizado, de um único frame afinal, para mantermos o contexto em que estamos: o da mulher no telhado da casa avistando o horizonte, enquanto que um dos líderes se afasta. E por mais que essa arte nos leve diretamente ao fora de quadro e ao extracampo a posteriori, como é da exibição de qualquer obra, é nela que se monta uma curva parabólica que permite a construção de textos como esses aqui do blog, ou seja, a possibilidade de erro e da própria poesia essencial de um filme, como exemplo de construção de novos fundamentos, porém isso só é permitido também pela possibilidade de darmos zoom, e se aproximar de maneira mais microscópica de um ponto, ignorando inclusive as anti-curvas que a linearidade da narrativa cinematográfica impõem de maneira mais totalizante, mais uma vez.   

Referências

Análise ontológica aplicada ao desenvolvimento de frames - Alexandra Moreira

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