Pregnância.
Os verdes anos
Paulo Rocha
"Para Hegel, tais “usos” da razão são próprios de uma filosofia que permanece no nível do entendimento. Entre a pretensão de uma destinação suprasensível e a realidade de uma Reflexionsphilosophie se estabelece a tensão que determina a filosofia kantiana como “ninho de contradições” (de que a separação noumeno/fenômeno é sintoma exemplar), ao mesmo tempo em que aponta para a possibilidade de sua superação imanente. A identidade da coisa coincide com a identidade da razão porque já estamos enxergando do ponto de vista da razão: ou seja, do ponto de vista que abole todo o ponto de vista" - Nobre
Mesmo concebido no modernismo o cinema carrega consigo a ancestralidade das outras artes que mimetiza, e que a partir dum processo de gestalt vai construindo consigo mesmo sua própria identidade, algo que se projeta do caos para atingir esse terreno novo. Portanto é o próprio caos que se faz em si mesmo esse lugar da ancestralidade, da matéria fundamental para se chegar a algo. Nesse verdes anos, Paulo Rocha fará movimento similar da concepção da própria arte cinematográfica, partindo de seu principio documental para assim chegar a um melodrama mais sofisticado. Mas aqui que se engana, e acontece os equívocos de interpretação, na transição desse melodrama por um princípio documental, o que acontece é ao contrario, por mais que instrumentalize o próprio documento como um gênero cinematográfico como outros cineastas farão muito bem, até pelo falso documentário, dum "La Jetée" passando pelo "Fata Morgana" ao "Bruxa de Blair", se expandirmos um pouco mais o conceito, a um proto-jornalismo de resistência. Mas o que quero com isso é na verdade por em disputa essa diferenciação entre um principio quase arquivista do cinema para sua potência artística, obviamente sendo necessária a passagem por desconstrutivismo positivado e moderno.
O positivo que se constrói aqui é em si uma proposta para se alcançar o mesmo ponto de partida a qual se fundamenta, isto é, a corrente e a linearidade do tempo com suas causas e consequências, fará com que esse gênero a posteriori criado pelo movimento do tempo seja empurrado e rejeitado pelo próprio movimento de gestação a qual o filme se propõe, dessa narração quase didática que abre o filme, para o movimento em panorâmica da colina e sua vegetação para os prédios logo ao lado, terminando dentro do apartamento de quem empresta a tal voz, alguém que ao menos conseguiu se adaptar a urbanização duma cidade histórica como veremos em conjunto às próximas cenas.
Então esse gênero que fundamenta outro, é para Rocha uma necessidade de reinvenção do próprio movimento do cinema, como o pós-modernismo ser uma descrição positivada do que foi o modernismo, como dito no parágrafo anterior. Enquanto a fundamentação apresenta o espaço em que esse drama será trabalhado, a intuição faz o papel de construir esse epílogo que reforça tanto a condição documental como gênero e necessidade do movimento cinematográfico espelhando e refletindo esse segundo momento, como um comentário progressista e duplamente reacionário. Primeiro num sentido antitradicionalista contra aquele romance incapaz de ser concebido por essa força maior do arquivo, quanto um comentário a depender da subjetividade de quem o assiste, contra esse mesmo progresso que assola a quase todos que estão ali, mas principalmente ao jovem homem que será destruído pelo amor de uma proto-feminista serviçal de burgueses.
Com isso fica mais perceptível a necessidade maior do posteriori como uma anti-intuição inclusive, desse segundo gênero como comentador do primeiro, e da despretensiosidade do primeiro em traçar uma relação com o segundo, contudo, isso somente acontece depois dessa experiencia, o que corrobora ainda mais a força da forma e do todo para a construção disso que vem antes, mas não que esse movimento segundo seja mera consequência do primeiro, mas também o motivo pelo qual a memória perdure como um ambiente mortal e criativo para a elevação e a construção de espirito, um mortuário. A maçã bíblica que não pode ser degustada mas também não pode apodrecer, a tradição, esses verdes anos destruídos pelo progresso civilizacional, ainda mais que o próprio capitalismo moderno, é esse lugar intocável, que ao mesmo tempo inspira e nos magnetiza ao seu retorno, por mais destrutivo que esse movimento venha ser.
Referência
Kant e o cinema transcendental, um debate acerca das relações espaço-temporais no cinema a partir de Theodor W. Adorno e Immanuel Kant. - Rafael Pereira
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