Modelos sintéticos e gastruloides, ou ainda a pretensão doxástica?


Ode

Kelly Reichardt

"Os assim chamados neoprotestantes e calvinistas não entenderam que na Itália, não podendo haver uma reforma religiosa de massa, pelas condições modernas da civilização, realizou-se a única reforma historicamente possível com a filosofia de Benedetto Croce: mudou a direção e o método do pensamento, foi construída uma nova concepção do mundo que superou o catolicismo e toda outra religião mitológica. Neste sentido Benedetto Croce cumpriu com uma altíssima função “nacional”" - Gramsci.

Venho numa sequencia de filmes que essencialmente se utilizam do melodrama com força teleológica para resolver a trama de seus roteiros. Esse primeiro filme de Reichardt não foge dessa lógica, o que começa com elementos duma especie de documentário narrado em off, sobre a condição da mulher em cidades interioranas, até pela simulação arquivística que a câmera ganha ao ser operada na mão, deixando o filme superficialmente com tons experimentais, atomizando ainda mais esse núcleo que transcende sua teleologia, para vir a ser uma tragedia de um outro gênero terceirizado e homogenizado.

Esses resquícios aforismáticos que se elevam da forma e produzem outro núcleo pr'além da essência, tem como no pós-modernismo seu mote, como uma reação mística contra o transcendental da ciência, ou seja, e ainda  por mais que se insista nas leituras mais superficiais e de gênero sobre o filme, ser em si um melodrama, retirando o seu sentido final e destinado de ser Um, como gênero ultimo, e portanto primeiro que move qualquer obra, coloca o filme nesse momento de certa homenagem ao heroísmo masculino, retirando assim o protagonismo feminino inicial da obra. Afinal o melodrama só pode ser reconhecido num momento posterior a sua concepção, como disse, somente através dessas poesias que despontam de sua matéria prima.

Existe um momento assim, que o filme desponta numa dessas imagens de experimentação e onde também acontece a ruptura com o que estava construindo até então. Dois personagens masculinos se fundindo ao por do sol enquanto a câmera, de maneira atomizada, enquadra de forma um tanto flutuante essa comunhão. O filme deixa de ser estritamente um documentário e perdendo a voz em off, pra também se fundir nesse material mais terreno como a cena derradeira da tentativa entre as oposições de se resolverem em meio ao Verdejo.

Assim o heroísmo masculino parte disso, de causar a ruptura, tanto com os gêneros que se formam sobre a essência mais transcendental e subjetiva que a caosmose feminina carrega ao destituir o próprio romance melodramático em seu turbilhão não-identitário e por universalizar a própria potência de criação, desses espasmos que a câmera da aqui diante da natureza, forjando um holismo naturalizado e coerentista, quanto impedir esteticamente que o filme se mostre como deveria ser, mas que para a diretora aqui, é algo que a própria superfície não poderá controlar, os ímpetos da própria constituição reversa que o feminino faz ao interpretar o masculino, em achar que a perversão esta contida nele, e não naquele primeiro, em si mesmo, muita enfatizada pela filosofa medieval Hildegard von Bigen, que constituirá a ciência pós embrionária.

Referência

“Le ceneri di Gramsci”, poema de Pier Paolo Pasolini: a crise de 1956 e a proposta da cultura extrema - Paolo Nosella

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