Iniciação ao satanismo: elipses luciferianas.
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Sam Raimi
"No tempo de Sosípolis a cidade de Antissa precisava de moeda. Como seus cidadãos tinham o costume de celebrar brilhantemente as Dionisíacas, cuja preparação durava o ano todo e se faziam grandes gastos e suntuosos sacrifícios, um ano, pouco antes da festa, Sosípolis os persuadiu a prometerem a Dionísio duplicarem suas oferendas no ano seguinte e a venderem o que haviam recolhido. Assim se juntou a soma para as necessidades do momento"
É sem duvida o principal diretor de documentários sobre a relação moderna entre homem e mulher. O que quero dizer com isso é pelo sentido didático que esse filme mais novo de Raimi consegue compor, o sentido mais cru e real dessa relação, não que ela seja por si mesma constituída e estruturada da maneira em que se apresenta a nós, mas que é consequência do homem-econômico principalmente. Não a toa se fazem leituras mais rasteiras e materialistas sobre a obra como luta de classes e como se essas classes estivessem ainda enclausuradas na forma romântica advinda do século XIX. Mas que ao mesmo tempo não é uma leitura tão descolada da realidade do filme, o qual roteiriza muito bem essa disputa mais romântica e radical, caricaturando a relação como um todo, e que pela montagem, na escolha das elipses, constrói ainda mais forte esse sentido de economia didática.
A complexidade do homem econômico jaz em Aristóteles quando percebe essa vontade de acumulação das riquezas e mais a frente com Marx se fará de forma esclarecida através das revoluções industriais o sentido cabalístico e universal dessa acumulação pós mercantil. E que ao mesmo tempo se põem de forma plana e simplória ao longo dessa história reduzindo a ontologia e a ética aristotélica ao mero materialismo moderno. Raimi faz o mesmo movimento aqui, mas no intuito de trazer o humor como ponto elementar e elevado da trama, e isso esta na própria sequência mais longa da introdução, e na preparação para a viajem onde todas as peças são delineadas e posta em suas devidas funções no jogo que será traçado aqui.
A escolha por abordar somente uma das facetas de cada sexo, da mulher trabalhadora independente e controladora enfrentando homens mais infantis e dependentes, é já a caricatura e esse recorte dado por toda obra de arte, ou seja, deixar rastros que estão hermeticamente apagadas, para que apenas uma faceta do significante possa sobressair e subssumir, fundando conceitos que trabalharão toda a trama e metafisica da obra. Por isso seguir caminhos simplórios na leitura de uma obra cinematográfica que é apenas um recorte e uma construção esotérica de uma realidade, não faz da interpretação igualmente simplória, mas é em si uma construção de média, de pontos que possam perpetrar em um certo nicho para que o ponto de vista possa ser mercantilizado, oras, reduzir o homem a economia como um espelho empírico disso que se experiencia, tratando de forma incorreta podemos dizer assim agora, o objeto em si.
Embora o problema não seja esse, é na construção dessa realidade paralela, isso é, uma arte diante doutra arte o real problema aqui. Quando o próprio diretor decide em abordar apenas um aspecto dessa relação, com pontos verídicos e que corroboram com a própria realidade em torno do filme, ele não esta totalizando e encerrado o debate como muitos acabam acusando nessas leituras. Portanto essa busca incessante pela consolidação do ponto de vista como reflexão direta da realidade do filme que já é em si uma mimetização da realidade vindoura, constrói mercadorias que ontologicamente se assemelham ao próprio sentido humano da relação que esta em tela, muito fundamentada pela lógica das elipses que ela carrega, tanto de sua abordagem minuciosa, e minuciosa aqui no sentido de um único ponto, ou poucos pontos qualitativos, quanto das elipses da própria estrutura narrativa, como na cena do assassinato no penhasco quanto da mansão subssumida pelo conceito totalizante do filme, como por essa estrutura linguística da obra como exemplificado anteriormente.
Referências
Economia política em Aristóteles e a perspectiva de Marx. - Alexandre Lima
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