Intuição burocratizada.


Drugstore Cowboy

Gus Van Sant

"Solon, of Athens, freed the debtors' person to reform the institution of debt slavery; he instituted the selection of juries by lot, with all citizens participating; and he gave the voting franchise to all taxpayers alike, thus beginning national democracy six hundred years before Christ... When he later journey to egypt, he there learned of the first war conquest, in the story of the lost Atlantis, and became acquainted with the imperishable laws of the governement of nation."

A intuição é por fim uma projeção, uma subjetivação individualizada, porém como toda individuação como Hegel esclareceu a nós, não é um processo em si narcisista por mais que sua filosofia desemboque num sistema faustiano e teosófico, esse processo é mais da verdade um movimento de singularidade conectada a um Todo. Consequentemente isso tem grandes probabilidades de se tornar mais uma construção egocêntrica e isolada do que realmente um "despertar" de consciência, como a congregação da nova era consolidou, e do que foi delimitado por Marx. E o que Van Sant quer demostrar aqui é exatamente essa consolidação. Filme que se passa justamente nessa era, que  consagrará muitos artistas, nomeando assim essa geração como os beatniks, sendo ainda materializado por uma dessas suas figuras aqui, e que serve também como comentário religioso que secularizou e sincretizou toda a América aproveitando-se da cisma entre as igrejas latina e ortodoxa, mais o protestantismo num processo judaizante do catolicismo.

Isso fica ainda mais claro numa das conversas subjetivas do protagonista lá pro final do filme enquanto é espancado pelos traficantes, sobre o endeusamento de novas figuras, o que corrobora com todo o star system americano, e toda uma cultura voltada para a idealização dessas figuras como a que faz o padre drogado aqui. Essas novas formas de ritual só reforçam o sentido religioso do humano, mas que a ciência de forma geral tentará desconstruir, e principalmente nos últimos séculos através da psicologia e afins. Não somente pela ciência, mas também por essas religiões sincréticas e materializadas como esses traficantes a espancar o ex-drogado. Essa tentativa de mudança do protagonista revela mais algo que esta contido por essas camadas opressivas de novas formas de adoração sempre próximas a matéria como as potencialidade aristotélicas medievalizadas principalmente pelos escolásticos, e que só fortaleceram essa cisma perante a ortodoxia que verá mais a frente no nous da alma o problema iluminista dessas projeções subjetivadas e não-singularizadas, ou seja, o narcismo do todo sendo individualizado, fortalecendo toda uma sorte de doenças psicossomáticas através de imagens, de ego, até mesmo pela transcendência moderna e heideggeriana.

Só que em Heidegger diferentemente de Aquino esse transcendente esta mais horizontal do que vertical, dando um sentido de certa forma progressista na busca pelo ser, ao tentar fugir desse ente, o que ao meu ver, reforça o identitarismo pós moderno como afirmação de si mesmo, isto é, uma afirmação do próprio modernismo, consequentemente um movimento especulativo e romântico. É o movimento que nosso protagonista faz aqui, a busca pelo heroísmo sem ser martirizado como toda a cultura americana é. O mítico que também é misticismo, mas como dito em textos anteriores postados por aqui principalmente no ultimo filme de Walter Hill assistido por mim, é esse processo de ficcionalizar o heroísmo simbolizando-o numa pureza mais tradicional do homem rústico e valoroso, do que uma memorabília martirizada, o que ajuda a ressalvar a questão material dessa cultura, ao transferir e terceirizar a culpa aos mortos através de superstição que maquiam e balizam a consciência. 

Todo tom do filme é assim contrastado pelas imagens subjetivas tanto sonoras, principalmente através da narração em off que moldam a realidade fílmica e diegética, quanto o próprio portar da câmera ao inserir na montagem e na duração da obra imagens de arquivo que servem como um fluxo intramundos desse filme original em paralelo, numa teoria de conjunto e de dependência para concepção das mentes ocidentais, isso fortalece o sentido economicista ao impor a essas imagens de arquivo o lugar sintético que move e puxa essa narrativa, fazendo com que o cinema em si deixe de possuir sua própria diegese. Enfim, não é uma linguagem que tem por si mesma uma narrativa, mas é sempre projetada por outras, o que também fundamenta sua própria essência miscigenada: aqui entre o sentido clássico do filme principal, as sobreposições mais experimentais, e o que esta em off, através do áudio e dessas outras imagens que simulam um arquivo que tanto servem pra iniciar e catapultar o filme em si, quanto encerra-lo com um epilogo um tanto auto-biográfico.


Referências

The secret history of America - Manly Hall

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