As vias da intuição.
Centurion
Neil Marshall
"Parece-me cada vez mais importante reconhecer certos fatos de nosso comportamento moral natural. Este entendido como aquele oferecido pelos dados científicos ou pela nossa experiência cotidiana na vida social e na relação com os outros seres vivos e com a natureza."
A dosagem do conteúdo dramático é formada de um sentido mais explícito, se gasta muito tempo na perseguição do grupo de sobreviventes do centurião, e muito pouco com o drama que delineia essa perseguição, e ao mesmo tempo em que essa poderia ser usada para fundamentar algum drama o diretor acaba vacilando em utiliza-lo. Por fim não radicaliza o que afirmou e tem em mãos, e também não busca algo que reforce a materialidade com uma diferença. Esse novo ritmo que é imposto mais no final do filme, na cabana da bruxa e com a decisão de não fugir mais, e de enfrentar, chega com pouco tempo de duração, perdendo seu sentido catártico de toda uma base que foi bem construída até ali. Apesar da tensão da perseguição ser bem construída, esse "mostro" ressentido e altamente intuitivo que os caça, representa muito bem a expressão do sentido do filme até esse terço final.
A reviravolta que acontece quando começam a aparecer as traições mais diretas e inesperadas, primeiro na subdivisão do grupo, mas principalmente na dupla que se separa na queda no rio e são perseguidos por lobos, até a corrupção da alta cúpula do império em decadência. Assim o filme acaba se revelando ao que veio, não sendo sobre a adrenalina catártica por si mesmo, da ação persecutória, mas sobre a decadência na disputa entre dois povos, um que se une pela ordem e leis, e o outro pelo próprio tribalismo mais terreno. O filme coloca esse dois povos de forma igualitária, possuidores dos mesmos problemas tribais no caso, enquanto um tenta se integrar no outro, surgem esse terceiro termo ainda pagão e não com um corpo estruturado e religioso, mas como uma preparação a isso, isto é, intuitivamente. Tanto é que esses personagens que sobram, acabam se marginalizando justamente por essa intuição mais exacerbada, mas que não é posta com uma carga dramática num nível consciente.
O que fará com que o simbolismo a qual o filme tente construir não se consolide primeiro por essa tensão que não é resolvida de maneira satisfatória, e por mudar o seu sentido sem prezar pela memória que foi construída até ali, um filme que salta a própria relação com a duração em detrimento também do tempo. Ao mesmo tempo que é antifeminista também se congrega na dissolução de qualquer tradição intuitiva, o que só reforça a afirmação dessa negação primeira, que se demonstrará dessa maneira bastante anarcofeminista como um principio clássico da lógica do terceiro excluído ao confundir a ideia de Estado com a de Império: do tribalismo mais terreno em reflexão com um mais metafisico, para se afirmar de maneira pouco dramática numa matemática psicanalista, fruto dos nossos tempos pois modernos, a qual já passou e não se consolidou pela paranoia e do controle dos fluxos capitalistas.
Referência
O INTUICIONISMO MORAL E OS DILEMAS MORAIS - Ricardo Bins.
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