Tzadik


Salaam Cinema

Mohsen Makhnalbaf

"Como eu disse, o misticismo representa, em certa medida, uma revivescência de concepções míticas. Isto nos traz a outro ponto bastante sério que eu gostaria de pelo menos mencionar. O mistico judeu vive e age em rebelião perpétua contra o mundo com o qual ele trata a todo custo de estar em paz."

A marca que preenche o vazio da sala e organiza os atores no quadro, demostra o sentido de controle das audições que já se fazem como filme. O que começa como uma homenagem repetitiva ao cinema ao simular os seus primórdios, só que antes dos operários saindo da industria, para agora eles entrando aos solavancos e pisoteados para dentro dessa outra forma de indústria. E o que era antes um trabalho pesado e manual, e não só nesse sentido quantitativo do tipo de trabalho que era feito, mas do sentido documental do filme antigamente como analisado no francês Louis Lumiere de Eric Rohmer, aqui o operário se torna um lumpemproletariado, a começar pela fileira gigantesca ao abrir alas para essa mais nova e consolidada industria. O que causa uma antítese direta com suas origens, e o que começa como um festejo ao centenário dessa arte, demonstra através de um estado religioso e verdadeiramente ariano, uma indústria moedora de desejos.

Esse filme-ensaio que se estabelece e vai se exaurindo conforme a projeção avança demostra o que tem de mais desértico nessa arte, a imagem que é gerada tridimensionalmente por câmeras postas em vários ângulos desmistificam isso do cinema como apenas camadas de profundidade que um plano pode gerar como um afunilamento, e por mais que se usem diversas câmeras aqui, vários pontos de vista que etiquetem o filme, é apenas de uma que essa mise en scene se aproveita, a do próprio diretor que se põem em cena. Constitui-se dessa forma um império do desejo. E tanto pela questão autoritária de umas das camadas desse funil e religiosa do extrafilme, do Irã da revolução tradicionalista, a qual o transcendentalismo marxista tem grandes dificuldades de compreender, e o próprio caleidoscópio do filme em si que espelhadamente se duplica nesse dogmatismo, mais materialista e científico-acadêmico.

A diferença é que um é pre-consciente e o outro é consciente. O racionalismo dos reis filósofos iranianos demostram essa consciência metafísica de seu lugar no mundo, na geopolítica enquanto a pré-consciência mais intuitiva do artista precisa partir de um ponto de não retorno progressista, de se utilizar dessa superfície da imagem para exaurir ela mesma. A estética forjada desse movimento da projeção para algo além de suas referências, mas sem antes entende-las, isto é, sem antes estabelecer um sistema, uma teoria própria do que se entende por conhecimento, a tendência é a mera repetição, fundindo quimericamente através de espasmo esquizos o cinema extraterrestre de Lumière e a filosofia jurídica de Khomeini. A melhor maneira de superar seu inimigo é entende-lo através de si mesmo, e para isso é necessário antes conhecer a ti mesmo. A desertificação dessa obra através da repetição que vai se mostrando cada vez mais autoritária acaba ajudando aos espectadores mais sagazes, a perceber sim a metafisica ocidental operando através de meios uma tanto estranhos a ela, algo que só é possível numa reeducação tradicional, mas que a principio só é cabível as culturas milenares e não secularizadas como a brasileira.

No nosso caso teríamos que antes passar por essa revolução tradicionalista do transcendental para o transcendente para que as coisas se acertem de uma maneira um tanto satisfatória a nós, e não projetista de um astro sem luz própria como é o cinema, mas que ao menos aqui o diretor entende que a sua duração um pouco mais curta fará com que a fluência do filme se torne algo mais premeditado, um acerto que não estende seu prejuízo por passar muitos minutos nesse lugar desértico, de onde um verdadeiro messias poderá surgir, se ao menos algum ator mais destinado e alinhado com sua transcendência andromórfica de tanto Kant quanto de Heidegger fisgar esse anzol. A isso precisaríamos entender com profundidade a historia do judaísmo, a matéria dessas imagens que vão se tornando rarefeitas ao longo e durante a projeção de setenta minutos.

Referências

Ficcionalidade e experiência religiosa na proposta teórica de Gershom Scholem - Francisco Leite.

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