Sociologia como burocracia.
Saaz
Sai Paranjape
"Do mesmo modo, o artesão que se encarrega de esculpir a imagem de madeira exige, para realizar o seu trabalho, um período de vinte e um dias, durante o qual permanecerá, recluso, numa sala do templo onde ninguém o deverá procurar. Indradyumna compromete-se a aceitar estas condições. Inquieta-se, contudo, quando deixa de ouvir o som produzido pelos instrumentos do artesão e força a entrada do templo antes do fim do prazo estipulado. A sua ansiedade revela-se fatal. O artesão desaparecera - e a imagem abandonada revelará para sempre a sua condição de objecto inacabado e imperfeito, isto é, congruente com a degradação socio-cósmica do Kali yuga."
O que pode fazer uma elipse? Seja ela num texto literário ou no cinema, as suas possibilidades não se encerram na mera omissão, mas nesse vácuo produzido entre as injúrias deixadas por essa ausência, e uma camada ainda maior de presença. Esse sentido que destitui qualquer relevância moral da matéria e nos coloca na metafísica. Sim, e por mais que os materialistas forcem um ateísmo amoral, é na ética que isso se resolve, e por isso também a importância de se traçar uma distinção entre moral e ética como dito em outros ocasiões aqui no blog. É também de suma importância assim traçar e perceber a importância do empirismo para a materialidade, e a partir disso carregar a moral a um lugar ainda mais subterrâneo, ou seja, retirar seu poder fenomênico.
A omissão da elipse carrega assim tanto a ausência no seu sentido empírico quanto a presença em seu sentido metafísico. E metafisico não só em seu viés ocidental carregado de ontologia, mas orientalista de qualidade inquantificável, um valor antieconômico. Os atores que são abandonados assim nesse lugar, nesse nada, rodopiam de uma maneira um tanto acelerada por conta dessa omissão, todos acontecimentos são empurrados para esse abismo fazendo com que os personagens se agarrem a qualquer totem que se assuma como presença.
O feminino que se apresenta como espaço vazio de uma matéria oca carrega essa potência de produzir fendas que se abstraem a qualquer movimento mais direto, um dos motivos pelos quais a ciência consegue se fazer o carro chefe das supostas civilizações contemporâneas. Por isso ser errôneo dizer que o problema das sociedade de hoje ser moral, pois não existe moral, mas uma prática empiricista e eticista de uma suposta moral, que é mais uma especulação do que algo realmente palpável, um espantalho diriam os ditados populares da política de agora.
Por isso o cinema e a arte como um todo serem tão materialistas, pois se assemelham a esse estatuto da matéria vazia, do feminino e das próprias elipses usadas nesse filme, da ferramenta que se torna técnica entregando um sentido condutor a obra, a um lugar poético que estão além da própria física a ser filmada e entregue como obra de arte, fazendo dessa ferramenta omissora não uma mera forma estilística, mas burocrática, sócio-cósmica. Por isso também ser um filme sobre a música, que transforma essa memória num corpo subtil, e ainda na musica, da cantoria, da voz como criação desse espirito, pra'lém da própria alma, da presença na ausência documentada.
Referências
Tempo mítico e construção da memória - José Carlos Gomes
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