Reflexão traduzida.
Russ Meyer
"Ocupar um espaço que precede outro distingue a noção de limiar de outras semanticamente próximas, tais como as de interstício ou de entre-lugar, muito em voga na retórica do pós-modernismo ou dos estudos pós-coloniais. Diferentemente delas, sua especificidade é a de não depender dos espaços que limita, mas, ao contrário, de questionar a sua legitimidade. Se o limiar é o lugar do anjo, ele revela o que há nele de inassinalável, de irredutível; o anjo é o mensageiro de um mestre invisível, e portanto a única garantia de sua mensagem. "Ou-tópica é a dimensão do Anjo. Seu lugar é a Terra-de-lugar-nenhum [...]. Ninguém saberia indicar o caminho que conduz a ela".* Mantendo-se no limiar, o anjo proclama sua autonomia e indica-lhe a vocação, no sentido estrito: a possibilidade que uma palavra tem de ofertar ou receber. Seu país é o estrangeiro."
O reacionarismo pode ser muito exemplificado através do cinema de Meyer, e temos em "Mudhoney" um dos principais pilares para se entender esse movimento, que é na verdade algo tão natural que não se poderia chamar de movimento. O histórico politico do termo reacionário carrega um peso um tanto mal fadado, através do cânone linguístico e do que se entende por esquerda. Mas não é do interesse aqui traçar esse histórico, como o blog é de rascunhos de hiperespeculações filosóficas, me contentarei, se possível, a conceituar esse termo de maneira um tanto isolada dos fatos.
Primeiro a passar pelo sentido místico do que foi dito antes, o de naturalidade, o que é perceptível por certa filosofia em moda no momento e que já faz de algumas décadas que esta imperando entre as academias mundo a fora e que foi muito bem aceita aqui pelo Brasil, a espinosista, através do deleuzianismo. O misticismo engendrado por essa naturalidade pode ser muito bem entendida pelos conceitos de natureza naturada e naturante do filósofo judeu, que por meio de sua Ética ajudará a consolidar uma visão um tanto judaica no cristianismo, algo talvez recalcado até mesmo por um dos seus principais perpetradores, Nietzsche. O qual perceberá em Espinosa a permanência que perpassa a tudo e é ao mesmo tempo disforme, transformista, o hibridismo entre Parmênides e Heráclito tanto destronada pelos manuais de filosofia. Uma imanência em estado absoluto que pouco deixa brechas para a dialética mais pontiaguda e portanto progressista, há nessa imanência algo um tanto conservador em seu sentido mais tradicionalista: a guerra em seu estado constante. Esse vitalismo espiritualista que também é reconhecido como o Uno neoplatônico produz essa simulação que anula o transcendental com o transcendente, como num jogo libertário de soma zero, tentando me fazer mais claro. O processo místico naturalizado esta na conjuração dessa realidade que tanto pode ser vista como um mal como um bem.
O que teria Mudhoney a ver com tudo isso? No simples fato da conservação dessa unidade ser ao mesmo tempo uma arma progressista quanto reacionária, explico. Esse processo descrito acima serve como um impedimento do que é mais valoroso, não num sentido quantitativo, mas qualitativo como descrito por René Guénon. O conservadorismo e o progressismo passam a ser as mesmas coisas por uma força centrípeta de união, que exclui e cancela naturalmente qualquer outra forma de conservação e progresso, unidas ou desunidas. Isso é muito bem representado pelas figuras do melodrama aqui, o personagem imbuído com o mal nunca é posto a prova, gerando um acumulo de forças centrípetas em seu corpo, todo o quadro, toda a montagem, o filme como um todo é gerido e gerado por ele, não possuindo nenhuma reação que seja capaz de usufruir disso, anulando todas as formas de contracampo sintético, embora analítico-conflituoso. Por isso muitos esquerdistas se confundem no cinema de Meyer ao tratá-lo como conservador, pois analisam o filme pela superfície da imagem, e não na própria hiperespeculação reacionária gerada por essa mesma superfície pornografada, um realismo cru que afirma o transcendental para poder supera-lo com sua oposição transcendente e gerar assim uma saída dessa armadilha, mas que sim, se da por vias mais pessimísticas e menos otimistas-positivistas, talvez esteja aí a dificuldade de ler seus filmes, por não oferecerem uma redenção, mas mostrar o que já é.
Ou seja, a natureza naturada se faz como naturante para que as formas místicas que tentam ser disruptivas acabem por se tornarem libidinosas, levando a essas hiperespeculações citadas e que muito se congregam na figura de Donald Trump, para exemplificar ainda melhor essa imagem do reacionário no seu sentido positivo e que encontra no cinema de Meyer um ótimo correlato: o realismo cru a enfrentar a matéria em seu estado mais bruto. A confiscação dos processos revolucionários. Isso tudo que concebemos é capaz de criar o que não concebemos também, é o sentido de realidade a qual se encontra o espírito contemporâneo, a realidade existe mesmo que não tenhamos posse consciente sobre ela, nos tornando seres místicos sem uma consciência mais límpida por assim dizer, somos como anjos caídos mas sem asas para alçar voo, nos assemelhando aos répteis ou mamíferos ruminantes, leia-se espinosistas e humeanos respectivamente.
O sentido hiperbólico disso esta na tradução do que permanece entre esse globo unificado e realista e o que escapole e é cancelado, para usar termos da política contemporânea. Esse limiar criado entre essas duas entidades de essências semelhantes é que faz com que o contracampo se assimile com algo clássico, mas que é na pornografia muito confundido com o sentido direto que a superfície estetizante cria, esse oposto que é mais analítico e conflituoso como visto acima, sem possuir uma virtude-sintética. Para ser mais simples e direto, a reação esta no sentido contrário ao que esta vigente e não é um correlato desse lugar homogenizado e hegemonizado, criando problemas de tradução como no caso sociológico e político tão em voga no momento no Brasil, de minorias que são, na verdade, muitas das vezes maiorias, retomando ao problema quantitativo e qualitativo guenoniano: o documentário que nunca é documentário, mas sempre ficção, para voltarmos ao sentido linguístico e teórico do cinema. Acho que agora fica perceptível o limiar e o terceiro excluído, e as confusões linguísticas desses termos conservação, progresso e reação na politica, até porque o empiricismo desse melodrama fundamentado aqui impede qualquer projeção mais romântica para que esse terceiro excluído, a síntese clássica do cinema e da lógica, possa ganhar alguma autoridade e identidade, sufocando o filme na negatividade da matéria, fazendo com que qualquer leitura mais a esquerda do espectro politico se revele como um reflexo da própria matéria do filme, cancelando e excluindo uma terceira via como tentei explicitar.
Referências
A tradução: no limiar - Alexis Nouss, traduzido por Izabela Leal.
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