Geopolítica extraterrestre.

Louis Lumière

Eric Rohmer

"Em concordância com sua natureza que consiste em imitar a Deus e à Santíssima Trindade, a Tríade do Mal está dividido em Lúcifer (a negação cósmica de Deus), Satã (a negação terrena de Jesus) e Samaël (a negação pneumatológica do Espírito ou do Arcanjo Miguel). João o Evangelista claramente os designa em seu Apocalipse: Lúcifer é o Dragão, "O Grande Dragão que ludibria todo o mundo" (XII.9), que faz guerra contra os filhos da Mulher coroada com estrelas; Satã é a Besta do Mar: "E foi dado a ele fazer guerra aos santos, e sobrepujá-los: e poder foi dado a ele sobre todas as raças, e línguas e nações" (XIII.7). A Besta do Mar é o Anticristo político, o Império do Mal, a negação terrena do Reino de Jesus, o Mundo Ocidental, imperial e niilista. A Besta da Terra emerge no verso 11 do mesmo capítulo 13: "E eu vi outra besta vindo da terra; e ela tinha dois chifres como um cordeiro, e ela falou como um dragão". Ela possuía dois chifres como um cordeira, porque parodia a religião cristã, enquanto realiza falsos milagres. Ela é Samaël o antiprofeta. Esses três espíritos impuros reaparecem três capítulos depois, quando os sete frascos dourados repletos da ira de Deus são derramados:"

É um ótimo momento para desenvolver algo que já estava intuindo e até postado como uma notação nas redes sociais: a ideia de categorizar o contracampo, o extracampo, e o extrafilme. Três instâncias de fora de quadro que fortificam a ideia de cinema como o próprio mundo a que vivemos, diferenciando assim de uma teoria mais realista sobre a arte cinematográfica, a qual concebe a realidade como um protótipo de filme. Quero engendrar de uma certa forma uma visão mais transcendentalista sobre o aparato de cinema, a própria câmera que filma, mas não só no seu sentido de aparato técnico, de ferramenta que esculpe a realidade, mas de entidade que concebe uma realidade, de uma maneira indefinida ao passo que identitária; mas também definida, personalista-representativa.

O momento em que o dialogo é travado, e mais principalmente na parte em que os dois atores-personagem discorrem sobre os filme ensaiados de Lumière fica perceptível essa questão da presença enquanto câmera-entidade personificada na figura do próprio diretor, numa semelhança um tanto crível pois terrivelmente amadora e mimética com a realidade de seus filmes "documentais", diriam os mais preocupados com o estatuto histórico-factual da obra. Mas retomando o sentido categórico e discriminador das instâncias do fora de quadro como características sumárias do que o cinema o é, o seu ser aí como arte, e como disse, mundo. É já sabido de como a câmera se tornou uma das principais armas de guerra, e de como a mídia se utiliza desse aparato para moldar mentes e espíritos ao longo desse ultimo século, e pelo sentido fantasmagórico que essa ferramenta ganhou no mundo contemporâneo, sendo um dos principais meios de comunicação, personificando-o de vez entre nós, com seus avanços tecnológicos permitindo a facilidade de sua portabilidade.

A presença de Lumière nos filmes atuados vamos dizer assim, é o que chamaria de extrafilme, algo que envolve toda a obra com autoria, e essa autoria é uma engenharia criada pelo próprio autor de maneira intuitiva, ao termos o conhecimento dos formatos dessa sua obra como um todo, apanhamos seu espirito. Já o extracampo como categoria intermediária esta dentro dos seus filmes como diegese, diferentemente do extrafilme como ser pensante cartesiano, o extracampo é o vácuo deixado pela força que existe no quadro que movimenta os atores ou personagens, o movimento diagonal para fora de quadro. Em filme como "Halloween" de Carpenter esse extracampo é confundido por muitos com o extrafilme, ou seja, a diegese que quer se desfazer como filme filmado, a entidade Michael Myers como objeto fílmico a se fundir com o aparato é erroneamente vista como algo exterior ao filme, não é uma presença como a de Lumière, sua autoria, mas o sentido sociológico imposto por John Capenter, confundindo o personalista-representativo com o indefinido identitário. Já o contracampo fica de maneira mais difícil de classifica-lo em adjunto ao primeiro cinema, diria que aqui em Lumière ele ganhará também um tom mais extrafílmico e que em uma obra como "o grande roubo do trem" se materializará em nós espectares.

Portanto o que tem de mais sublime nos filmes de Lumière é esse lugar extraterreno personificado pela sua presença ao impor uma certa ingenuidade mimética aos seu atores nas ficções em contrapartida aos seu personagens nos documentais e com profundidades de campo extra-campais fazendo do seu contracampo um proto ensaio para se conjurar espectadores, tornando-o em filmes supostamente didáticos como esse a revolver a presença do próprio que intitula a obra analisada aqui, como uma entidade representativa dessa falsa confusão entre ficção e documentário, ao traçar um paralelo entre o artista Jean Renoir e o arquivista Henri Langlois num contracampo mais violento e lateral, entremeado pelos filmes do próprio Lumière, fortalecendo este que será o sentido do espectador como o extracampo contido pelo contracampo, que em si mesmo não é possibilitado pelas dificuldades tecnológicas da época primordial dessa arte, fazendo com que nós, inclusive o diretor se tornem espectadores mais ativos, refletidos ainda na dupla que converge, agora, o filme de Eric Rohmer.

                          

(O arquivista-ator e o cineasta-ator formam um contracampo em lateralidade, adjunto as imagens dos filmes de Lumière; e ainda o diretor Rohmer, sendo esse terceiro mais verticalizado)                               

Referências

Eurasianismo e espiritualidade - Laurent James.

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