Filosofia > Sociologia.
Brain Sex
Hisayasu Satô
"Na partida que estou a jogar neste momento no meu computador, creio poder forçar um xeque-mate em meia dúzia de jogadas, mas não consigo descobrir como. Não me é possível apresentarmos as razões por que penso haver aqui uma sequência de jogadas vitoriosa; simplesmente, parece-me ser esse o caso. Recorro então à ajuda de um amigo que é muito melhor jogador de xadrez do que eu e que, tal como eu pensava, me mostra as jogadas corretas. Numa situação deste tipo, sinto-me tentado a dizer: «Eu bem te disse, eu sabia que estava em posição de ganhar.» Isto não significa que eu apenas tenha conhecimento quando descubro as jogadas vitoriosas; eu tinha o conhecimento «desde o primeiro momento», ainda antes de o meu amigo ter apresentado a justificação para a minha pretensão. A crença verdadeira é, portanto, suficiente para o conhecimento; a justificação nem sempre é necessária."
A projeção que salvífica a montagem no sentido em que a câmera progride para um espaço posterior a qual esta alojada a priori, de um plano aberto no terraço de um prédio direto para um espaço fechado de um dos quartos de apartamento, e nunca através dum contracampo, mas como disse, por uma projeção linear e a posteriori. Essa relação estabelecida produz sim um efeito contracampo, mas não no sentido clássico de mesmo eixo, ou ao menos de lateralidade num diálogo onde personagens se encontram um a frente do outro. Obviamente a proposta aqui não esta nesse diálogo frontal, mas lateral, quando personagens próximos uns dos outros; projetista, retilíneo e lançador nesse sentido, quando se confrontam a distância, através desse voyerismo. Mesmo que exista uma consciência dissimulada que estão sendo vistos e usados como personagens, sua aparição esta ali como vítima de algo maior, que não pode ser assimilado e estruturado por sua psique.
A tensão produzida por essa personagem que engendra o filme ao disputar com seus pais o lugar de equilíbrio nas relações, o ponto médio e de síntese, de como colocará essa câmera apriorística como lugar de fala dessa via que mais a frente criará a própria produtora do filme, nos deslocando ao momento mais desconfortável, quando a cena de sexo mais longa é conjurada por um contracampo lateral-projetista num espelho, mixando tanto esses diálogos com sua amiga no terraço entre outros encontros dialógicos com outros personagens da trama, quanto aos progressistas e projetistas que caracterizam o filme como um todo. Tanto os planos que simulam essa primeira pessoa do microfone, como se a câmera estivesse embutida nesse aparelho de captação sonoro, fornece a chave para entender essa transição que quebra com a tensão gerada pela protagonista ao sociologicamente superar seus pais, ou ao menos a familiaridade daquela cultura já totalmente imersa na perversão das potencias materiais.
Esse jogo entre os saltos que a montagem dá ao produzir esse turbilhão de elipses e que põem a heroína como energia propulsora desse movimento ao também encontrar nesses seus atores, motivos para se relacionar e depois criar inimigos na tentativa de produzir imagem, ego no seu caso de vir da idade (de gênero comming of age), é o tratado político deixado a uma sociedade entregue a essas potencias do caos, da poesia que se insere no lugar do ponto de tensão entre opostos. Contudo isso, a poesia que a estética é capaz de construir é aqui algo corriqueiro a um certo tipo de cinema, um mais experimental e independente, e normalmente inserido nesse gênero do horror, e aqui incluído o próprio gênero erótico e pornográfico dentro desse horror, a justificação, seria assim esse terceiro termo que fica vagando entre os polos opostos de uma tradição na montagem, mesmo que a realista force os planos mais estendidos e prolongados em sequencia com o minimo de cortes, a oposição pode surgir pela inventividade do próprio aparato que fundamenta a projeção-progressista, deixando a conservação como contradição de si mesma transbordando misticismos que produzem esse desconforto e vaguezas quase ilógicas, poéticas.
É dessa contradição que a tradição fala em todos os seus movimentos mesmo numa arte moderna e recente como o cinema em decorrência das outras, o de fazer parte de algo ao mesmo tempo que não se quer fazer, é uma obrigação de difícil subversão participar de logicas sociais que estabelecem pontos de tensão a priori de nossas origens, mas que ao mesmo tempo nos força a materialmente se aproveitar dessas potencias e brechas que surgem para construir algo novo. Não teria como traduzir o feminino pelo poder dessa forma, o querer das feministas, mas pura potencia disforme prestes a ser engendrada numa egrégora, ou tulpa que for, esse é o caso das sociedades japonesa e ocidentais, assim se parece a dissimulação baziniana com seu profilme, ou os contracampos mais diametralmente clássicos.
Referências
Introdução a teoria do conhecimento. - Dan O'Brien
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