Artigo definido e indefinido no organon pós-moderno.


*Corpus Callosum
Michael Snow

“Quando eu comparo os fatos do primeiro sistema com as imagens na tela e os fatos no segundo sistema com as imagens na película cinematográfica, há, na película, uma imagem presente, imagens presentes e imagens passadas; mas na tela há apenas o presente”.

Essa ponte a qual o filme se remete de maneira direta através de seu título, não é meramente biológica, e não seria uma alusão certeira chama-la de "ponte" pelo simples fato do uno, da união indivisível desse lugar que "liga" hemisférios, no caso da biologia, o corpus callosum, e no seu sentido politico de identidade generalizada, ou seja, a vontade massificadora de criar união, nação. E enquanto o objeto a ser analisado aqui, de cinema, o sentido desse lugar biológico concomitantemente politico é antes de produção e como fim de extrafilme. Há de se julgar e separar aqui esse sentido biológico antes de relativizá-lo como ciência moderna, primeiro em seu viés de teorias evolutiva, a qual fracassou em estabelecer sua potência metafisica, de forma redundante mesmo, pois esse eterno retorno do mesmo produzirá uma diferença que seja capaz de fazer  com que o poder surja hierarquicamente em seu traço mais vertiginoso, e onde a biologia por si mesma emperra ao ser reduzida a matéria mais multiplicada, elevada a enésima potência. Essa força diferencial que surge da repetição, desses retornos que criarão esse espaço-lugar onde é produzido o filme, a alusão mais certeira em seu ponto de vista científico, mas é com esse espaço que se conjura quase que imediatamente, o paralelismo do além, de um limbo melancólico. E digo quase de imediato pois o filme é em si materialista.

O cinema é em si materialista, a arte é em si materialista, a estética do filme em questão remete a esses cursos televisivos que eram ministradas nas manhãs dos inícios dos anos 2000, pequenas empresas, grandes negócios, do ápice racional do Estado se fazendo cada vez mais diluído através das tecnologias as quais cria, numa expansão de seu poder através dessas potências as quais explicitei no parágrafo anterior. A matéria é fria por ser exatamente e infinitamente divisível, diferentemente da biologia quando tratada pela sua faceta metafisica, mesmo que ainda seitas insistam em a ver com seu sentido evolutivo, ateísta-darwinista, por ignorar do éros platônico. Portanto é de suma importância também o lugar da câmera, o espaço que ela ocupa geograficamente no plano cinematográfico, e para se entender a capacidade cinematográfica de qualquer artista, é imprescindível entender o lugar que sua câmera compõe. No caso de Michael Snow, essa câmera se dilui, como um estado liberalizado através das privatizações e particularidades não individualizadas, a matéria frígida. Talvez o único acerto de Marx teria sido a constatação da contradição engendrada por essa estatização permanente da matéria, ao observar o atomismo quase dicotômico entre Demócrito e Epicuro, e ter tirado disso a lógica embutida na forma-mercadoria e na usura transcendente que ela fabrica, o que quero dizer com isso é na verdade essa possibilidade disforme da matéria, entre a infindável divisibilidade que possui, tanto quanto a sua permanência, a qual traço paralelos diferentes de Marx, entre o estoicismo e Parmênides.

Passamos agora a matéria em seu sentido permanente que se constrói como dito em outras análises feitas aqui no blog, do movimento retilíneo democratiano e curvilíneo epicurista, ao mantenimento dicotômico entre Parmênides e o estoicismo como um todo, mas preferencialmente do seu ponto geográfico na grécia antiga, para a postura em retidão e aristocrática de seus seguidores, a matéria em seu estado mais potencial, portanto, metafisico, que influenciará a duplicidade pós moderna espinosista-nietzcheana. Retomamos assim essa ideia de unidade dita no inicio desse texto, o da fraca analogia que se pode traçar no significado de ponte, como se existisse algo que permeia como um terceiro termo entre dois lugares distantes entre si, mas que na verdade é algo que se constitui como uma unidade, exemplificado muito bem pelos próprios espaços a qual o filme traça, todos diluídos pela câmera que se identificará como um vírus nesse organismo.

Nesse caso a barreira que se cria aqui seria mais entre o vitalismo bergsoniano contra a gramática wittgensteiniana onde o plano de cinema se distorce de tal maneira que o sentido de técnica também é contorcido, diferentemente como num filme socialista cientifico, "o homem com uma câmera" de Dziga Vertov, onde o aparato é por si mesmo o homem a filmar, uma extensão do seu corpo, uma ferramenta como uma enxada a capinar a terra, uma caneta a escrever uma carta, já para Snow, ela se torna uma virtualidade virulenta onde só a própria produção do filme é capaz de fabricar esta vacina, e não no sentido de erradica-la, mas de controla-la, um bioterrorismo como traçado nesse texto, um Estado que quer ser liberalizado naturalmente, criando aberrações dificilmente compreendidas pelos mesmos costumes ocidentais que a fabricaram, e fomentada pela dicotomia a priori criada por essa matéria marxista, tendo no Irã da revolução tradicionalista o exemplo máximo disso, que ao nosso olhar ocidental se mostra um tanto inconcebível.

Referências

Wittgenstein e Bergson -  Bento Neto

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Antimimom Pneuma

Hilemorfismo teatral

Relações demasiadamente funcionais.