Quimiquismo
Une femme douce
Robert Bresson
"O objeto químico é distinguido do mecânico pelo fato de que este é um todo que é indiferente à natureza de suas partes, enquanto o objeto químico tem a sua determinação de tal modo que ela é sua qualidade constitutiva, e ele existe apenas na relação com seu outro."
É um factoide perceber aqui a relação escravo/senhor, por mais direta que Bresson coloque isso na tela, não é realmente o sentido do filme (isso se quisermos nos fixar na essência de uma obra verdadeiramente vasta, não sendo o intuito de fecha-la somente nessa questão, mas também não se conter com materialidades rasteiras) por sabermos também pelo primoroso controle técnico que ele possui. A temática pode ser sociológica, baseada em Dostoiévski, mas como disse, os closes são o que elevam o filme a outro patamar desse que é comum aos espectadores, o de fazer com esse ponto de vista mais material se torne um sentido mais direto à hiperespeculação da própria relação que é dada pela montagem, portanto, além dos planos fechados, algo que vem a posteriori, por menos que seja as informações da concepção primeira do diretor, é dessa montagem em paralelo do velório que carregará os closes para outra dimensão, assim a temática que fica na superfície da relação, da materialidade de toda a relação entre os personagem é desconstruída pelo contexto pós moderno em que esta inserida, da nouvelle vague a revolução cultural burguesa.
O mal estar esta traçado nessa relação que não pode vir a ser vindoura, e novamente não pela fadada dialética senhor/escravo mas pelo contexto linguístico, geográfico e sócio cultural, e por fim econômico a qual esta engendrado o filme, e economico nao por teleologia, mas consequência hierarquizada. Nessa ordem os planos fechados nas mãos por exemplo, simbolo de seu cinema, esta coordenado mas também subordinado a esta montagem em eterno raccord do velório, de memórias sendo refrescadas pela amargura. Por essa técnica de continuidade dos planos que faz com que a temática sociológica fique suspensa desmanchando a dicotomia entre escravos e senhorio, o que só nos revela também o quanto de metafisica e espiritualidade esta latente por todo movimento de massas. Embora isso não queira dizer diretamente a ordem dos processos, como propriamente em Hegel é desenvolvido o conceito do conceito, um sistema hierárquico de comando do espirito, não é a matéria que coordena essa metafisica, mas o movimento intuitivo e sabioso dessa máquina vertiginosa e transcendentalista.
O temor trazido por esse movimento romantizado em reação a própria metafisica do belo e do mundo como vontade e representação fará com que a criação das relações atomizadas e conjuradas por casais venha desse lugar que para nos ocidentalizados seja fantasmagórico, que a nosso ver é entregue pela técnica da técnica disfarçada de conceitos. Um dos motivos também ter criticado recentemente em outro texto dessas análises de filmes aprioristicamente pela técnica e não pelo movimento que o espírito faz para entregar essa técnica. Portanto não é o raccord que eleva tanto os closes quanto a temática, mas todo o contexto, ou seja, do extrafilme que rodeia antes a montagem que é a aprioristicamente concebida ou não em adjunto ao roteiro, a depender do modus operandi de cada artista, e isso é o que menos importa a nós pensadores, não nos interessa a psicologia do artista, mas o que esta sendo conjurado por ele, ou melhor, pelo seu destino.
Referência
Ciência da lógica II: A doutrina do conceito. Georg Hegel
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