Alegoria e processos atomísticos.




Radioactive Dreams

Albert Pyun

"Mas desde esse ponto comum o clinamen toma caminhos diferentes, desviando-se ora numa, ora noutra direção: para Badiou, ele principia por discriminar a excepcionalidade de um événement [acontecimento], que reponta precisamente no lugar onde se aloja o impossível próprio a um determinado campo estrutural, ao passo que, para Deleuze,  ele  se  estende  por  todo  o  comprimento  impassível  em  que  se  defrontam  os corpos e os incorpóreos, como se a própria Natureza fosse afetada irrestritamente pelas derivas  do  desejo.  De  sorte  que  os  dois  filósofos  contribuem  para  que  se  configure  a seguinte  circunstância:  o  pensamento  pós-estruturalista,  ao  tencionar  uma  revitalização do materialismo, acaba produzindo novas derivas do antigo atomismo." 

A principal diferença entre uma alegoria e os seus próprios processos metafóricos e simbólicos, não é de produzir analogias e comparações elucidativas, e daí criar a possibilidades de outros mundos a fio, mas de ser por si mesma uma alegoria, acreditar naquilo que se expressa por mais dos elementos que a compõem. Assim toda forma que aparece em tela, no caso de cinema, e mais especificamente para Albert Pyun, é na crença daquele mundo que esta sendo criado, que tem como uma relação mais direta um contracampo como fora de quadro para reforçar o campo primeiro, como na consequência da explosão da bomba atômica que delineia aquele mundo, para que a convergência dessa crença toda não conjure messias, ou sábios que explicitem aquele mundo, mas aprendizes que nos guiem junto na aventura. O clinamen de Pyun.

Essa falta de didática, e a certa pressa acelerada de fazer com que esse mundo fagocite esses personagens eleva ainda mais os momentos de pausa, fazendo dos reencontros mais explosivos e afetuosos, lotados de cargas dramáticas. Essa forma apedeuta de traçar o mundo ignorando seus elementos mais atomizantes gera uma contradição interessante e que na maioria das vezes não é resolvida justamente pela proliferação criativa, que é a real atomização do filme, ou do cinema de Pyun como um todo. Por isso também ao ignorar e recalcar essas metáforas mais direta como a própria ode a radioatividade e as guerras nucleares iminentes, é que fazem desse quadro ganhar uma força tremenda, sempre muito bem utilizada no retorno dos personagens, e nos seus reconhecimentos. Uma das principais cenas que representa isso, é quando a principal vilã do filme esta em primeiro plano, enquanto a dupla protagonista entra no quadro e se acomoda no centro dele, e divididos por uma parede com uma janela, eles não entram em contato, até que a vilã,  a única ciente da presença nessa cena, se apresenta, resignificando a relação. Numa outra ocasião, como a do show, que ganha contornos de videoclipe, a câmera do alto lentamente se abaixa para formar um plongee da multidão, quando a cantora invade o quadro e diretamente olha para câmera cantando.

Momentos de reencontro que também reencenam essa didática da alegoria como um todo, da afirmação máxima, com o intuito primeiro de cancelar as metáforas, para assim reforça-las como comando, o que por si mesmo é uma pratica progressista e liberal, e no seu viés mais aceleracionista, o que convêm aqui ao romantizar o sentido nuclear não só da politica e da sociologia, mas também da linguagem cinematográfica como falei, do plano de cinema por si mesmo, quase como sem a falta de necessidade de seu contraplano, o qual é naturalizado pelo tempo e a imposição da narrativa em seu sentido roterizado, forjando assim uma diferença entre a necessidade e a naturalidade do plano de cinema.

Referência

Notas sobre um atomismo e um marxismo pós-estruturais - Ivan de Oliveira

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