Transcendente contra transcendental.



Docteur Jekyll et les femmes

Walerian Borowczyk

"Para exemplificar, podemos considerar uma árvore real fora da alma. Uma pessoa que se aproxime dela poderá receber, pelos cinco sentidos externos, várias sensações desta árvore singular. Todas essas sensações esparsas serão, então, unificadas em um fantasma, na imaginação, que é uma imagem sensível daquela árvore singular. Em seguida, o próprio intelecto age, junto ao fantasma, para engendrar uma espécie inteligível que represente essa mesma árvore, não como singular, mas como o universal “árvore”. Essa espécie representativa do universal “árvore”, recebida pelo intelecto, produz, em uma ação conjunta com este último pela qual ela é impressa nele mesmo, o conceito universal de “árvore”, predicável das diversas árvores em juízos do tipo “uma macieira é uma árvore”. Mas o que garante que a árvore real individual, aquela imaginada como singular, e aquela concebida como universal são realmente a mesma árvore? Dito de outra maneira, o que garante que o conceito universal “árvore” é realmente um conhecimento desta árvore real?"

 Bom momento para se fazer uma distinção entre transcendente e transcendental e seus sentidos teológicos com suas implicações politicas. Enquanto o transcendente se poem como uma oposição ao imanente, o transcendental se coloca de maneira mais abstrata, tanto por estar dentro da própria imanência, assim se opondo também ao transcendente quanto se colocando além dele numa espécie de duplicação hiperbólica. A essência se poem como fenômeno nesse movimento transladado de uma força que passa de transcendental introjetado na imanência para a uma forma mais abstrata de transcendente, movimento complexadamente técnico, no sentido de que o movimento de força que puxa esse transcendentalismo para fora da imanência é meramente estético, por assim dizer, da ilusão que se cria nesse momento da matéria imanente sendo rompida pela distração do que esta de acordo com si mesma, ou seja, algo que deixa de estar em si para ser conduzido a outrem e alem, movimento considerado místico por muitos mas que é, a princípio, estritamente material. A dissidência formada nesse movimento de busca por uma identidade, da técnica que deixa de ser imantada pela construção de estéticas passíveis de fenomenologias esta acirrada de comprovações biológicas em todos seus sufixos. 

A estrutura da burguesia que Walerian representa aqui é de certa forma todo esse movimento biotecnomórfico explicitado de maneira um tanto abstrata no parágrafo anterior, da decadência do que supostamente vem de fora, mas é na verdade uma força de seu ínterim, da essência que se passa por pura transcendência, mas que é genuinamente a técnica universalizando-se, a droga que se toma para tornar-se outro, um superhomem. Um filme que se estabelece todo em interiores e que recalca isso que vem de fora para se tornar não um filme de horror especificamente, mas algo mais corporal, disso que não esta posto cosmicamente a priori, mas que magneticamente desabrocha de seu próprio seio. o contexto social disso que já nasce decadente, que atribui a seu próprio movimento algo que deixa de ser um artífice para então se tornar algo alienígeno de sua própria constituição mesmo que o movimento duplo o transforme biologicamente em algo diferenciado, portanto que se constitui de matéria diversa, é pelo simples fato masculino de sua vontade pelo feminino, e que é na figura da mulher naquela sociedade que se desfaz o elo necessário para essa união, onde a mulher é ela mesma sempre dependente desse outro que escapole da imanência, e que não consegue por questões biológicas fazer o mesmo movimento.

Essa medicina transcendental de que fala o filme, desde o discurso direto no banquete, ao livro lançado ao fogo, é o que faz a trama girar, da tentativa de estupro de uma criança, passando pela traição das mulheres ao seus entes  em duplos sentidos filosófico e biológico, para a afirmação do interior como única saída para construção e organização de cenas, tudo que vem de fora é na verdade uma ameça, e não no sentido em que esse fora e externo possa destruir o privado, o interno, mas de conseguir molda-lo de alguma maneira, por isso o tempo se distende e se repete quando a câmera esta adjunta a essas traições que ocorrem entre as quatro paredes, como se tudo estivesse em família, e não precisasse de um real conhecimento da técnica que insiste em sair daquele ambiente, que nos primeiros momentos se disfarça através da superfície, da carne mesmo, da matéria.


Referência

Transcendentes ou transcendentais Um ensaio sobre Kant e o erro dos escolásticos. - Gustavo Barreto

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