Ontologia social


Matou a família e foi ao cinema

Neville D'Almeida 

“Em suma, as máquinas são sociais antes de serem técnicas. Ou melhor, há uma tecnologia humana antes de haver uma tecnologia material”

A infinita possibilidade de divisão do espaço tratada pela filosofia de Russel contra Bergson, a qual Schores trata em seu livro sobre a logica de Gilles Deleuze, cabe bem aqui  no sentido em que Russel irá ignorar o movimento tornando-o mistico ao esquartejar e bisecar o espaço num infinidade atomística, rivalizando com o intuicionismo vitalista bergsoniano, tão caro ao filósofo francês pós-moderno. Sabe-se que a principal conceituação deleuziana é de que a diferença e repetição, onde a dialetheia vence a monoletheia, ou seja, a possibilidade de contradição da logica não clássica sobre a retidão contraditória da logica aristotélica onde a negação de um termo não pode ser ao mesmo tempo verdadeira ou falsa, se "A" é verdadeira "não A" necessita ser falsa, e vice versa, causando também uma bi-implicação entre esses dois, enquanto na concepção dialetheica essa bi-implicaçao é transformada no paradoxo contido pela contradição, isto é, a necessidade de veracidade do primeiro termo não implica a falsidade do segundo mesmo que esse seja uma negaçao, uma não possibilidade, ou ainda um nada.

Para Neville a refilmagem de um roteiro clássico é essa diferença na repetição que ocorre ao tratar a verdade não como monolítica e detentora do que se seguirá, ou melhor dizendo, não é a verdade em si, mas o primeiro termo da questão, da sequencia logica que dará maior enfase ao sentido histórico e da memoria para esses artistas e filósofos, e enquanto o filme original de Bressane era essa autodefesa mistica contra a ditadura militar, de um cristianismo ainda pagão, onde para o artista mais jocoso como Neville se transformará em uma reação as avessas dessa historia, afinal os tempos são outros, não possuindo aqui agora a autodefesa mas apenas um comentário sobre o que restou de herança desse movimento anterior, e mesmo que queira e tente escapar dessa coalisão entre contradição e paradoxo o que fica aqui é justamente a fraqueza ainda de um neopaganismo cristão e a falta de ortodoxia em entender a inversão de valores realizada principalmente no seculo XIX bem analisada na filosofia nietzchiana onde a própria historia-memoria é concebida de uma maneira "menos" cientifica. O que deixa aberturas a movimentos transhumanistas na opção de repetir diferencialmente a cena clássica do duplo assassinato interdependente, da elipse que destronava a propaganda, subjugando-a, portanto dependentes entre si, contra a independência rebelde da repetição do casal gay diante de uma nova possibilidade de contar estoria, numa leve distinção subjetiva contra o coletivo que aparecerá logo em seguida através da montagem em letra garrafais esse tom satírico da repetição aludindo o velho e revolucionário judeu.

Essa preocupação com o povo só demonstrará por fim uma certa arrogância artística, portanto sofistica ao delinearmos como massa de manobra e ainda assim afirmar de maneira indireta a necessidade de consciência da população. O que antes era essa arma contra a questão original dos princípios e consequências ontológicas se tornará a redundância e portanto uma certa renovação diferencial desse principio dando maior enfase ainda na originalidade, na vingança, ou simplesmente uma analetheia, esse vazio, esse nada, uma preexistência sem valores de verdade e falsidade.

Referência

O resgaste do sombrio na obra de Deleuze - Luiz Gustavo

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