Hesitações burocráticas.
A ambiguação no cinema de Burton é tamanha que seus filmes mas parecem uma rivalização direta contra a própria filosofia platônica e a tradição politica. Muito se fala de sua sátira ao liberalismo, mas me parece, na verdade, mais uma forma de endossa-lo, como uma repetição, ou seja, a própria forma como também substância do que já é em si. Explicito melhor ao dizer como o diretor se utiliza da própria arte para critica-la, um movimento altamente retórico e portanto reacionário e extremamente superficial, e aqui no sentido mais positivo de superfície possível, uma categoria fenomenológica: arte como comentário dela mesma, num movimento autoconsciente, logo devidamente educado, comportado. Isso alcança seu ápice em marte ataca, filme que usará dessa ambiguação para refletir sociologicamente toda sua repulsa pela filosofia.
Os marciano são assim, na verdade, por referência mais que direta ao contexto extrafílmico, ao governo imperialista do EUA, enquanto o próprio governo dentro do filme é a nação submissa a ser dizimada, uma vingança acólita típica do meio artístico. É um filme bagunçado nesse sentido de que só consegue adquirir movimento por essas burocracias espertas do roteiro. Assim as piadas aqui necessitam sempre desse contexto social ao qual a obra esta inserida se tornando algo transcendente em seu sentido mas divergente à própria categoria da potência, do que pode vir a ser, por isso esse grande conflito entre a forma, tudo o que o filme carrega desse lugar externo para se moldar e ganhar corpo, quanto sua substancia e identidades próprias.
Portanto o filme se fecha em si mesmo numa retórica redundante e sem espaço de saída, é como se o que representasse estivesse ao mesmo tempo sendo representado, e isso fica evidente nas trocas de planos entre os espectadores dentro do filme que assistem a princípio aquele espetáculo todo acontecendo. Um dos "méritos" do roteiro é justamente esse, de conseguir por a trama para mover num único ritmo do inicio ao fim, sem tantas pausas, mas que faz das piadas o pequeno tempo certeiro, fechando com essa ode da arte pela arte, como um movimento antifilosófico e um tanto pessimista, ao tratar alguns personagens com singularidade e afeto, como a própria dificuldade de miscigenação daquela sociedade, onde raças diferentes convivem num mesmo espaço, mas são segregadas materialmente, por mais que políticas e direitos humanos disfarcem isso, o que só torna o filme mais problemático ao meu ver, pois não consegue enxerga a si nesse movimento automático e perceber sua repulsa a técnica capaz de dissolver essas amarras sociais as quais estão presas, é daí a percepção dos românticos perante ao idealismo transcendental que universaliza a imanência, o paganismo, mesmo que o mais forte dos pessimismos reaja misticamente a isso, não conseguirá conte-la com seu kantismo de confins românticos.
Referência
O sobrenatural no mundo moderno - Julius Evola
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