Do inevitável progresso
Excalibur
John Boorman
"Outra característica original da filosofia de Cacciari que também é incomum, dada a tendência para o universalismo entre os esquerdistas, é o seu interesse na geopolítica e na geografia das civilizações, ou seja, geofilosofia ou geosofia. Cacciari presta grande atenção às diferenças entre culturas e identidades, propondo interpretar cada uma delas com base em seus critérios internos. Nisso, ele segue a antropologia cultural de Boas e a sociologia de Dumont. Em seu estudo da geosofia da Europa, Cacciari introduz a noção do “Arcanjo da Europa”, enfatizando assim a variedade mosaica de diversas regiões europeias."
Elipses e falsos raccords carregam os corpos e deslocam as imagens míticas em cada plano. Logo de inicio a montagem e os efeitos entre os contraplanos remeteu-me aos filmes do Suzuki, e a quebra temporal que acarreta a montagem disruptiva entre planos em espaços diferentes, sendo "Pistol Opera" o ápice dessa técnica. O tempo só pode ser quebrado no cinema desse jeito, uma certa limitação que se bem usada pode expandir por vários sentidos e significados. O tempo no cinema só pode ser quebrado pela geografia dos planos, por mais que o cinema contemporâneo viciado na estética videoclipe dos anos 80, para shorts de redes sociais, insistam em distorcer o tempo com inúmeras técnicas que vão desde a aceleração da duração da imagem com cortes rápidos e mesmo um fastforward numa alusão torta ao primeiro cinema ainda mudo, mas que agora é direcionado pelo próprio espectador, que já não é mais espectador, perdendo a principal essência meditativa da arte cinematográfica. Mas retomando a essa quebra do Tempo, em que somente o espaço será capaz de faze-lo esta evidente no cinema de Seijun Suzuki e que aqui em Excalibur, antes desse real amadurecimento no cinema do japonês, serve com deslocamento das esferas míticas, do paganismo gnóstico e suas disputas intelectuais entre magos e bruxas, aos cristianismo dos cavaleiros em suas práticas mais intuitivas.
O dragão é essa representação do polo imanente que produz corriqueiramente essas esfera entre planos que farão com que a narrativa se torne cada vez menos durável, ao passo que Temporal, é um filme nesse sentido mais sobre o espirito se revelando ar, e atmosfera, e portanto técnica, do que uma real vontade que move esses personagens. Afinal a historia já conhecida e posta em cinema com o intuito nesse sentido de caracterizar essa repulsa pelo que é religioso e espiritual, a falta de sinceridade que Merlin irá indagar como motor de toda a historia e de toda a desgraça é por esse sentido mundano, dado pela montagem ao que já esta dado, o ser no mundo heideggeriano que não se pergunta que mundo é esse, por não ser afeito a ciência e a essa própria técnica que move o filme espiritualmente. O que muitos espectadores necessitarão assim dessa transcendência que fará com que o filme corrobore com narrativas externas a ele, ou seja, a unica exterioridade cabível ao filme, a já conhecida historia da távola redonda passa a ser uma maquinaria subjetiva a questões contemporâneas de quem o assiste.
É com esse sentido que a tradição do cinema se faz ainda menos viável para a construção de um outro esprito que rebata de maneira tão pulsante quanto essa imprimida pelo filme e seu suposto machismo presentificado no momento das ininterpretações enviesadas pela matéria mais rarefeita, ou melhor e com menos contradições, do platô mais instável da qual se vê e analisa a obra. É ainda com esse sentido subjetivado que esse movimento transcendente de análises fique ainda mais frágil ao revelar essa imanência a qual o filme não se contem, o dragão que a própria vida e a biologia, a geografia e portanto o filme em si mesmo, radicaliza e exagera toda essa imanência formando ao olhos do que não vê o filme como ele misticamente se conjura como uma relíquia de seu tempo e sua geopolítica que acaba transferindo seus atomismo para uma racionalidade que é tão contraditoriamente afetuosa quanto as comparações a um outro japonês como Kurosawa e mais especificamente seu filme Ran.
Assim é geograficamente óbvio que a atmosfera do filme se torne acelerada pelas grandiosas elipses, e muitas delas imanentemente misticas por afirmar o atomismo como idealização máxima como em Marx, mas que é pela técnica da poieses, dos saltos em blocos de assimilações cognitivas e duráveis dos raccords que demonstrará uma maior vontade pelo Tempo em seu sentido menos durável e materialista, e mais acelerado em seu sentido hiperespeculativo. Em que um filme como "Pistol Opera" se demonstrará como uma conspiração entre assassinos, aqui se faz entre religiões cada vez mais destoantes dando brechas para interpretações romantizadas em cientificidade.
Referência
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