Devir como sinônimo de progresso.



"Como o devir choca os hábitos do pensamento e dificilmente se insere nos moldes da linguagem, declararam-no irreal. No movimento espacial e na mudança em geral viram apenas ilusão. Podia atenuar-se esta conclusão sem mudar as premissas; dizer que a realidade muda, mas que não deveria mudar. A experiência coloca-nos em presença de um devir: é esta a realidade sensível. Mas a realidade inteligível, aquela que devia existir, é ainda mais real, e essa, dir-se-á, não muda. Por detrás do devir qualitativo, do devir evolutivo, do devir extensivo, o espírito deve procurar aquilo que é refratário à mudança: a qualidade definível, a forma ou essência, o fim."

Sanshô Dayû
Kenji Mizoguchi 

Começa com escritos na tela sobre ser uma historia triste, antes do humanos serem humanos, e se desenvolve como o poder da hierarquia pode ser pernicioso, e ainda de como esse poder molda o enquadramento de cinema, e aqui é necessário entender enquadramento, ou ainda melhor a organização de cena como um todo, como espaço, do quadro em si e dos movimentos que a câmera engendra, e o tempo em seu sentido menor de duração, e maior a qual fecha a obra como um todo infligindo significados que vão justamente além desse quadro, desse espaço fílmico.

Como enquadramento de cinema que automaticamente gera o que esta fora de si e que é representado aqui de maneira um tanto cósmica, ou para ser mais social e politico, de maneira hierárquica, onde o sentido escravocrata deixa de ter dimensões teleologicas para ganhar forças materiais, o que ao meu ver entra em contradição direta a essa abertura um tanto pessimista, pois há aqui um sentido de superação ao qual esse Tempo entregará ao fim. É o sonho realizado da filha mesmo sendo sempre desmotivada pelo filho mais velho, mais realista, e pode-se dizer materialista sem adentramos muito nessa discussão classificatória entre realismo e materialismo, o que não deixa de ser também mais uma contradição, pois é através dessa vontade mais sonhadora diante da realidade opressora que moverá esse personagem mais cético a mudar toda aquela situação.

Esse tempo menor, da duração que esmagado tanto pelo seu correlato maior quanto pelo próprio espaço a qual esta inserido, afinal é o enquadrar que ditará o ritmo a qual o filme se movimenta, das mudanças de perspectivas a música entoada e do chamado da mãe que ainda ecoa através desses afetos entre as relações, desse movimento de fugir da escravidão para se tornar governador e trazer uma certa revolução social ao abolir aquela forma econômica, por isso é na verdade um filme mais positivo que negativo. É nesse sentido que a duração que decorre desses movimentos mais rasteiros dos que formam a imagem a qual assistimos dando suporte para que ela se realize e que também servirá de base material para essa verticalização que sufoca o quadro a todo instante em que a câmera demostrará também pelo sentido necessário da natureza em também oprimir aquelas relações. Mesmo que a alta nobreza de governantes escravize uma boa parte de seu próprio povo, é através de camadas de subservientes que esse Tempo mais simbólico e finalmente mais positivo traga essa perspectiva em ultimato e onírica, da dor sendo cessada para ser renovada pela necessidade natural do progresso, da passagem do desumano ao humano.

Referências

Da temporalidade imanente ao tempo objetivo do mundo em Husserl - Marcelo Rosa

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