Kabhi Khushi Kabhie Gham, 2001.
Karan Johar.
“A intuição de um filme, fotogenia embriônica, já pulsa na operação conhecida como decupagem. Segmentação. Criação. Dividir uma coisa para transformá-la em algo diferente. O que não existia antes, agora existe.” - Bunuel.
"Destinada a entreter, a novela descura do presente vivo em prol de presentificar o passado, capaz de sugerir devaneio, ou evasão da vida diária. [...] O passado, que se diria conhecido, fornece as novidades; e o presente, morada do imprevisto, é posto de parte. É que o presente real guarda surpresas quando apreendido em câmara lenta, como no romance. [...] A rapidez da ação na novela, pressupõe o conhecimento preliminar das surpresas armazenadas, e por isso, enterradas na memória e na História, mas a fingir que irrompem espontâneas no fio da narrativa." - Moisés.
Amontoado e sucateamento das ferramentas que destituem a sua própria força que vem de encontro para teorizar a linguagem e tirá-la de sua indústria, construída por si mesma. Com a quebra dos valores que discorrem dessa fortaleza que se torna o lixo da humanidade, se corrobora pelo fim dela através da metafísica, da duplicidade, da intuição, das classes e vidas em paralelo. Filmes que acontecem em simultâneo, percepções que se mostram num primeiro momento para deixar a visão cósmica pela terrena, o MBA que cai do céu, dos slows motion, a convivência pornográfica. Não há saída assim para que essa destruição ocorra, quando se é consolidada através da memória, a tradição que perdura e trancafia esses corpos numa redoma de energias que simulam algum tipo de força, de algum tipo de sentido. Por mais que a desgraça, o melodrama ocorra, é sempre pela superfície dessas energias que as coisas, os objetos se aprumam. Sim, objetos, não estamos lidando com corpos aqui, melhor dizendo, afinal é a assimilação com a mecânica da grande maquina que os põem em estado pessimístico se faz mais pela organização da montagem do que a de cena, mesmo que os corpos caibam de forma ensaiada esse quadro, é pela montagem, seu efeito de sobreposição para ser mais específico, que essas energias mecânicas simularão alguma força, e que estariam mais afiadas hipoteticamente com o que quer se mostrar do que o que se deixa dos efeitos às causas. Portanto, a razão nunca cabe aqui, é uma novela no seu sentido mais popular, onde o outro é transformado em pó pelo pessimismo criado na positividade fenomênica. Costumava achar que o capitalismo caiu feita luva na índia, já que era uma sociedade dividida em castas, mas agora Karan, me mostrou o inverso, a índia, ou o orientalismo caiu feito luva no capitalismo, como um passe de mágica reacionária da decupagem. Tudo meticulosamente espalhafatoso, como se a duplicidade do devir primordial não equivalesse a si, dando ao retorno também um hábito naturalizado antes mesmo de ser hábito.
Referências.
O que é uma decupagem? Katia Kreutz.
Novela: um gênero polêmico. Peterson de Oliveira.
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