Pelo fenômeno.

3x Robert Bresson.

"Todo estilo é, assim, antes de mais nada, uma dupla diferencialidade intuída. É com base no pressuposto de que essa intuição não é arbitrária, mas motivada [...], que saímos do nível puramente existencial para o formal, começando já a realizar uma Estilística. A esta compete, deste modo, fornecer, no nível formal, a comprovação ou refutação de uma intuição de estilo." - Chociay.

"diferente do poder que se baseia na troca de dádivas ou na violência. Sem ter que recorrer à coação física ou mental do outro, esse poder é exercido por meio de trocas baseadas no consentimento mútuo." - Karatani. 

"Laura Mulvey, como Metz, (...) clama por uma “destruição” do prazer cinemático e insiste que esta destruição seja levada a efeito “não em favor de um novo prazer reconstruído”, mas somente em direção a uma estética da distância, “separação passional, dialética”. - Shaviro.

"Caso a intelecção do primeiro movente mudasse de  conteúdo, ele passaria de um estado de potência para a intelecção em ato disto que, antes, estava em potência para ser inteligido. Assim, o conteúdo da intelecção, isto em vista do qual o intelecto se atualiza, seria de maior valor que o intelecto. Conclui Aristóteles, então, que o primeiro movente imóvel, enquanto intelecto e o melhor dos entes, intelige a si mesmo sendo intelecção de intelecção. Caso contrário, ele não seria o melhor, mas o melhor seria aquilo por ele inteligido." - Sousa.



Les dames du bois de boulogne, 1945.

A intenção de se produzir o genérico é meramente filosófica, ou melhor, toda vontade levada ao todo é um ato de pensamento, a vontade que também é de se entender socialmente, de qual parte ou pedaço desse todo está representando. O contraste, tanto da fotografia como dos personagens traz essa elucidação, é nos opostos que o motor e o ato são construídos para que nossas carreiras sejam traçadas na cultura em que nos inserimos. Assim a salvação vem a galope, num plongee exorcista que retira desses personagens suas energias para inventariar forças que não estão para eles, mas para nos, o Estado. A confusão da produção de valor e da venda desse valor está dada, uma economia calcada nessa disputa radical começa quando a manipulação é a única arma para se contornar as injúrias, a atuação é nesse sentido a salvação, o contraste da salvação dada pela técnica da câmera, que põem o corpo da suposta prostituta em epílogo para o nós, enquanto o corpo da aristocrata fica a eles, ao exército zumbificado que sustenta esse jogo. A mãe não está para o entendimento dessa ferramenta que puxa a alma e a lança para fora da matéria, da produção de valor no momento da venda, como o marxismo que não sustentou a si próprio com o fim das grandes guerras. E venda aqui como esse sentido mercadológico de também produção de normatividade, um bem de consumo só pode ser produzido, se o seu valor de venda for desejado pelo consumidor final, assim não é a produção que dita a regra do capital, mas os desejos que constroem a mais-valia, a insanidade de estar vivo, e se esvaecer por amor, ou melhor, e mais uma vez essa locução tácita, não se esvaece pelo afeto deles sobre nos, porem sempre a vontade do conjunto contra a enfermidade que se busca sanar na moda.




Quatre nuits d'un rêveur, 1971.

O espaço que nos diz o quanto as relações se darão por qualidade, aqui Bresson transforma assim o corpo dos jovens em fantoches para que a cortina de fumaça projetada pelo final das possibilidades politicas, e das transformações que isso se da na própria arte e filosofia. Como a bossa nova, que emite a felicidade através da melancolia, ou como deveria ser toda obra de arte? Só é possível a felicidade pelo pessimismo? Apesar do diretor não abrir espaço para rodeios, mesmo quando a narrativa digride, para usar um linguajar informal e popular,  retornando ao fundamento dos personagens, a mudança de planos se constrói na normatividade, o corpo do artista assim não pode ser outro mesmo nas tentativas de adaptação, o que ocorre para que eles fiquem assombrados pela ordem é, na verdade o contorno que fazem para permanecerem vivos no plano medido a passos. Como quando o artista atravessa pela jovem na calçada a observar a vitrine, sai do quadro, para em seguida ela caminhar disfarçadamente na direção oposta, ele então retorna atrás dela, voltando ao plano e logo é retirado do rumo mais uma vez por outra jovem na direção oposta. O filme se constrói todo nesses sentidos, de corpos que perpassam em sentidos perpendiculares mudando rumos de outros, quando uma arte embate a outra e se torna uma coisa só, observamos a nós mesmos no final, sempre forçados a uma inadequação dada pelo caleidoscópio desses olhares, do transporte da alma a outros planos-espaços empateticamente diluindo o espirito reafirmando sua liquidez adilaetica. A equisistência é um existir em distância, como não participar da realidade cultural, mas também em uma equidade fantasmagórica que só equinos conseguem atravessar, entre planos, a existência só se da entre-planos. Com o fim da pedagogia assim, a revelação só dará nesse momento que transforma a conexão dos corpos como silhuetas, minimamente como nossa única escola que nos resta, cinema.



L'Argent, 1983.

O senso comum é intransponível, o mutável como imutabilidade. Guerra infindável entre valores que se impõem nas relações, o dinheiro como hábitos e costumes, prevalece antes da sublimação da mercadoria. Nesse sentido sao afetos que conjurarão esse simbolo que se torna significante a medida de que é compartilhado e tornado palpável, comum. Como não fazer assim uma leitura ideológica desse filme? Se não estivéssemos vivendo em alguma comunidade, por mais que ela não se demonstre como uma, afinal é isso que ela mais quer. E sociedade aqui como um único corpo, um leviatã, fazendo com que esses valores se consolidem. A técnica se faz mais que importante, ela é junto a esse macro corpo quem promoverá essas trocas em maul caráter. Da face que demonstra quase nada, da personalidade como um disfarce que corrobora com um açoite a relação que fica entre esse caminhar da cidade ao campo. Como no filme anterior, o presságio está dado, mas não como atravessamento, e sim como repetições que se esvaem na in-diferença, enquanto um derruba o outro. Não se fala quase em moral na crítica das artes mais especializada, mas se e somente se, como a ferramenta usada pelo autor nos carregará nesse trajeto entre o entendimento e a intelecção, a composição só se dá nessa forma, quando não há, não existira arte nesse sentido, construindo tudo que temos de pior relacionalmente, por mais escapistas que tentamos ser, a conta por esse busca pela equidade à máquina cobrará sua conta cedo ou tarde. Nesse igualar com a natureza, o motor imóvel diria a filosofia aristotélica, naturaliza em duplo sentido essa cultura, onde o que mais importa é a milimétrica do gesto, até como sua desesperança com o todo o leva assumir a similitude ao invés do mutualismo. A matéria é massa de modelar, do corpo esculpido por uma vontade majoritária e não somente do sujeito, não existindo assim individualismo, apenas endurecimento dos músculos, a massa se tornando consistente, menos liquida, de umidade devidamente controlada. A ciência social comparada ao sofisma.


Referências

Demétrio e o estilo: breve história da tradução de um título. Henrique Cairus et al.

Modos de intercâmbio, metabolismo e formações sociais: contribuições do esquema de Kojin Karatani para pensar a dimensão espacial. Bruno Costa

Paisagens fronteiriças no cinema contemporâneo. Andréa França.

A pluralidade dos Moventes Imóveis e os Tipos de Intelecção na Metafísica Λ de Aristóteles. Meline Sousa.

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