Bikini Hakers, 2023.

Scott Hillman.

"Não há em Um Condenado à morte escapou imagem abusiva alguma (mais realçada do que a anterior ou do que a seguinte), efeito dramático algum, complacência alguma nem falha alguma. É talvez o primeiro filme da história do cinema a suscitar uma pura emoção, despojada de qualquer facilidade, uma emoção específica, criada pelas virtudes em si da imagem e do som: duração dos planos, sucessão dos olhares, relações das formas e dos ruídos, diálogos dos objetos e das mãos." - Sémoulué

"Mas o artista só tem em si a poíesis na medida em que ele é o que ele é no vigorar do ser. A obra de arte opera na medida em que ela contém em si a poíesis, o vigorar da phýsis enquanto mediação, medida, linguagem." - Castro.

A edição é o truque principal do cinema, mesmo nos primórdios, quando ainda era truncagem e sobreposição de planos, para depois o efeito dialética no enfrentamento de dois planos. A terceirização aqui se mostra já como esse choque que ocorre antes mesmo dos dois planos se apresentarem, assim como o letreiro que aparece, não vem para consolidar algo que virá, ou que ocorreu, mas para dar uma terceira via, ampliar o extracampo de imagens lixo, rarefeitas de tão genéricas. Evocadas pela pressão do ar, ao caminhar sobre um túnel, essas imagens deixam de ter a liquidez e a umidade que é da própria concepção da fotografia, uma emulsão, é, portanto, uma nova origem, que destoa do seu princípio, quase o escamoteando por inteiro. Afinal ainda estamos falando de cinema? Por mais que o chiste seja predominante aqui, ainda sim a piada é de maior conformidade e grandeza, os embates entre as imagens continuam se dando, as gags se renovam, mesmo que sem um sentido memorial e de mortuária, essas matérias se estabelecem por esse sentido comum de imagens que se confundem com a diegese da própria edição do artífice em questão, quanto a de uma cultura que rodeia esse suposto ato criativo. Suposto, pois é com o diretor que as forças tomam o rumo, falando teoricamente, apesar do expectar nosso, em tempos e espaços diferentes, toda obra possui seu cerne, causando assim a ambiguidade. É o extracampo que se torna mestra de obra nesse caso (ou será em todos os casos, quando se fala de uma arte de bricolagem como o cinema?). O cinema nunca foi uma natureza, uma essência em si, mas uma quimera, já em nasciência. Essa maquina- corpo, demonstra sua organicidade desde seus primórdios, mas que só si torna autônoma quando catalogada, posta em embate com o senso critico. Não existe filmes que não dizem nada, e a mudez, ou a falta de conversa que ele proporciona com o espectador, é um problema desse segundo, pois o cerne da obra sempre esteve lá, até mesmo sendo o demiurgo que a criou, uma bitola das mais intuitivas e sem intelecto, embora esse texto seja uma tentativa para provar a inexistência disso, ou dessa justa medida totêmica que nos assombra. Pois o que nos dá a aparecer, a representar, nunca é equilibrado, mas algo já in extremis.

Referências

O extracampo no cinema: um olhar além do que se vê em um condenado a morte escapou, de Robert Bresson. Silvia Abreu.

Poiesis - Dicionário de poética e pensamento. UFRJ.

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