Um homem sem importância, 1970.
Alberto Salvá.
"Para a psicologia introspeccionista clássica, diretamente oriunda do realismo, o fato psicológico é um dado simples, relacionado a uma realidade perceptível chamada psíquico. O próprio dos fatos psicológicos é dado pela participação dessa realidade que constitui um mundo ou uma vida no mesmo sentido que a natureza, mas que goza de propriedades opostas. Os psicólogos objetivistas, quando protestaram contra o próprio realismo psicológico, só procuraram libertar-se da forma técnica do realismo, não da atitude fundamental que a gera: procuraram, eles também, definir o fato psicológico como um dado simples relacionado a uma realidade perceptível e, até aceitando a alternativa clássica do espírito e da matéria, eles encontraram-se diante da exigência de procurar o fato psicológico nos dados da percepção externa." - Politizer.
"Lembramo-nos do comentário de Christian Metz segundo o qual a tradução linguística de um plano de um revólver não seria a palavra “revólver” mas qualquer coisa como “aqui está um revólver”. Notemos de passagem que este exemplo não é neutro: trajectória do dedo, do olho e da bala, pulsão escópica, pulsão balística. Todo o problema da enunciação no cinema consiste em saber o que é que, no decorrer da projeção de um filme, funciona como a instância que enuncia, a voz silenciosa que diz “Aqui está... Aqui estão cadáveres, um B-52..., etc.” A asserção é o privilégio do som – e também é pelo som que o sentido se produz e que o cinema militante, por exemplo, se tranquiliza – mas o privilégio da imagem, a presentificação, o acto mesmo do “aqui está” [voici], não foi verdadeiramente interrogado." - Daney.
Crônica de como o tempo pode ser capturado pelo espaço. O plano dos dois irmãos e o pai sentados à mesa tomando o café, onde o pai é quase por completo cortado enquanto a cena dura sem outros planos por um bom tempo; somos também tragado pelo negatividade do pai. A aleatoriedade dos acontecimentos. Estar na cidade nos leva a isso, casar o outro com essa metonímia. Resquícios que nos fazem crer ainda numa superação das forças eternas. A busca por emprego, e uma colocação na realidade que tanto some com as vontades inconscientes, criando outro campo (minado), a subconsciência. A psicanálise não desenvolveu ao longo de sua pequena história essa dimensão, ao fugir da dialética e criar o império do significante, de onde pode gerir essas forças ulteriores e reacionárias do que é supostamente imutável. Única forma de reaver esse lugar onde as coisas se esclerosam, ou melhor, onde não há objetos, portanto coisas somos nós presentificados, é exatamente consolidando esse plano médio como saída para o plano fechado, não existindo uma escala. A vista do alto em Santa Teresa, o próprio relevo da cidade do Rio não interessa ao plano geral, não abrange tanto a visão, pois estamos rodeados de montanhas e morros a tampar o horizonte. O paradisíaco, antes atrativo da Capital, passa a ser ameaça por questão dos próprios transeuntes. Pelo medo do terrorismo, a cidade-capital foi lançada ao centro da cartografia, para fora de quadro, também como presente momentum. O já sabido e já visto, da negatividade que não é por vontades potenciais, mas um maul estar embutido nessa carreira ontológica que se tornou a superfície. Não é que os encontros se deem ao acaso, mas por uma força tão maior que a autoconsciência não é capaz de fisgar. A massagem recebida pelo japonês que intercala entre o médio e o fechado plano demonstra essa pretensão projetista tanto dos personagens quanto nossa de que esse outro permeando a montagem se dará como um passe de mágica a ser resolvido. Por isso o embate final ser tão pujante, o enfrentamento é feito diretamente com a subconsciência, os resquícios que ficam no plano, os personagens logo somem e ficamos apenas com o protagonista esbaforido, enquanto o irmão mais novo que aprendeu a lidar com o pai volta para fazer a mediação, nesse p&b ciânico.
Referencias
O que é a Psicologia Concreta? Reflexões politzerianas em torno do problema da crise da psicologia. Bruno Carvalho.
O cinema que faz escrever: textos críticos. Serge Daney.
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