Sunrise: a song of two humans, 1927.

F.W. Murnau.

“trabalharam em parceria para minar a esfera pública e a democracia, ao produzir um cidadão governado que busca soluções para seus problemas em mercadorias, não em processos políticos.” - Fischer.

"Se a semiótica de inspiração lingüística me perturba, é porque ela suprime tanto a noção de imagem como a de signo. Ela reduz a imagem a um enunciado, o que me parece muito estranho, e por conseguinte descobre, forçosamente, operações linguageiras subjacentes ao enunciado, sintagmas, paradigmas, o significante. É um passe de mágica que implica em colocar entre parênteses o movimento." - Deleuze.

Sobre a transição e a premonição do que pode ser, mas que pelo realismo capitalista nunca o é. Essa morte e a paranoia que persegue o personagem principal durante sua jornada emanará o que Murnau tem de mais potente, o expressionismo. Imagem que tem como símbolo o corpo sendo empurrado no lago, para ser mais tarde no filme substituída pela imagem desse quase mesmo corpo sendo resgatado por um dos moradores do vilarejo. É a construção do herói assim que nos é dada; disse quase corpo anteriormente, por ser uma imagem duplamente fictícia, criada subjetivamente pelo herói ao ser forçado pelo símbolo da morte advinda da cidade. Essa segunda imagem do salvamento também é subjetiva, mas em busca de uma positividade, a favor da vida e das relações bucólicas, e pelo expulsar dessa morte que paira a cidade. A inociência é aqui trabalhada nesse lugar do positivo, do significante que abre fendas, de como um plano se imiscui no outro, causando assim a ruptura, que observamos ser, na verdade, desfactual do processo histórico, uma premonição da crise do que já chamo de capitalismo tardio. Não esperando pela afirmação da modernidade pôs internet para confirmar esse entardecer da economia, muito bem representada aqui; se vai à cidade com intuito de dar cabo de uma relação simplória e inocente, para se dar em relações abstratas e cientificas, que abram fendas no vínculo e a destruam, ou fortaleçam (a lei seca como uma já estratégia de confins de uma economia em falência). Portanto, essa imagem que salva o casal e o reuni, não é para mostrar ao espectador que tudo termina bem, mas para assombrá-lo ainda mais, ao perdurar o sofrimento com a dicotomia campo e cidade. Assim, o que une esses dois corpos que acompanhamos é o deleite do simples, do minimalismo da própria imagem, como ela pode ser potente e mudar os rumos de uma narrativa. Algo que diretores como Shyamalan irão entender bem, o que desvia novamente o conto ao seu rumo de origem é essa vontade de projetar algo equidistante e impossível de existir, o romantismo adjunto ao expressionismo sendo lobotomizado pela longa jornada de ida a cidade, lugar de desgraça e sem potência anímica. O poder pelo poder de supostas ligações que nunca em fato acontecem, e que um casal que não pertence aquele espaço é capaz de registrar falicamente, como corrobora o fotografo de seus beijos. O que a cidade traz de mais importante para essa relação é esse novo imaginário do poder, da crença mesmo no árduo momento, da câmera que toma também um vínculo diferente com esses corpos quando está na relva, e quando está em meio a fumaça. Um espaço sustenta o outro à sua maneira.

Referencias

Existe um capitalismo cultural? Reflexões sobre o realismo capitalista de Mark Fischer. Leandro Oltramari.

Teoria dos signos no pensamento de Gilles Deleuze. Roberto Nascimento.

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