Estamira, 2004.
Marcos Prado.
"Onde Anaximandro colocou matéria indeterminada, Anaxímenes coloca novamente um elemento natural determinado, ou seja, restabelece o absoluto numa forma real, que agora, em vez da água de Tales, é o ar. Este pensador considerou, sem dúvida, que era necessário atribuir um ser sensível à matéria, e o ar tem ao mesmo tempo, a vantagem de possuir uma maior ausência de forma: é menos sem corpo do que a água pois não o vemos, mas apenas nos apercebemos dos seus movimentos." - Hegel.
"Os artistas deste período não esgotam de querer figurar de modo simbólico, por vezes enigmático, as aspirações por ora confusas ao divino. Enquanto a Arte Simbólica caminha por diversas formas, a Arte Clássica determina sua forma em função da Idéia, do conceito e das intenções que acendem o artista. A técnica é tão perfeita que controla plenamente a matéria sensível e a inclina às resoluções do criador." - Zanardini.
Uma estilização que afronte tanto a própria narrativa que cria e assuma a sintaxe de uma lógica que escolarizará uma linha de pensamento. A matéria não é assim extremamente indefesa como a própria heroína afirma aqui, lá pelos finais do p&b chamuscado e emulando a película. O autômato já estava presente mesmo sem o advento do humano, ou mais especificamente sobre a força surgida na virada do mercantilismo para o capitalismo. Se um filme, como esse ou qualquer outro, tenta conceber um mito, não é para que ele se ausente das forças da sua criação, a mise en scene escolhida por mais que seja intuitivamente, como quase todo processo artístico deve ser, ela está atrelada a uma visão de mundo. Mais tarde, ao longo do tempo, da história que se forma em torno filme e que segue a nossa própria historia brasileira e do nosso cinema demonstra e nos revela melhor quem são os realizadores deste em questão. Assim, o estilo que tanto soma a obra não o subtraindo, ou seja, não revelando quem realmente é Estamira, mas criando um ser descontrolável, altamente carismático e que nos engole nos seus primeiros discursos, com ajuda da fotografia a elevá-la a um patamar ficcional de um cientista que conhece muito bem o ambiente que está inserido. O que me tem importunado ultimamente é exatamente essa força ulterior, o que acontece no momento em que projetamos essa sombra do ser, da unidade de seu fenômeno, conjuramos uma ideia do que é Estamira, que através da montagem percebemos ser uma pessoa assolada pelo masculino, tanto o maul cocriado pelo homúnculo das grandes navegações quanto o alquímico já presente nos pre-socráticos, ainda permanece a dúvida, e a especulação dos microtraços formadores dessa ontologia, toda a contenção que fizemos do orientalismo; em qual curva nos perdemos da real Estamira? Mesmo que essa relação contida pelos filósofos que perdurarão das leituras dos africanos sobre Aristoteles, como Avicena fez, para cair nas graças de Aquino no medievo, a conjurar anjos que ilustrarão toda a nossa cultura. Nossa heroína condiz sobre esse apartar da carne e do sangue, dessa vontade pessimística de sumir, apesar de ainda possuir um gosto pelo trabalho, pelos laços e afetos criados, enfim do triangulo como primeira e ultima força, intransponível, não será ele também um meio? Por isso ser uma obra cyberpunk, por tanto rarefazer a imagem airando-a ao máximo como um gás carbônico que perfura e implode as superfícies quanto a pujança messiânica contida nessa bomba, como muitas leituras nietzschianas fazem a e o rodo do filme por ae.
Referencias
A noção de arche no contexto da filosofia dos pré-socráticos. Miguel Spinelli
Breves notas sobre o conceito de estética em Hegel. Fábio Correia.
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