Anand, 1971.

Hrishikesh Mukherjee

"alguém pode perguntar o que faz com que nessas guerras absurdas, grotescas, nesses massacres infernais, as pessoas, apesar de tudo, tenham se sustentado? Sem dúvida, um tecido afetivo. Não quero dizer que era porque eles estavam amando uns aos outros que continuavam combatendo. Mas a honra, a coragem, a dignidade, o sacrifício, sair da trincheira com o companheiro, diante do companheiro, isso implicava uma trama afetiva muito intensa. Isto não quer dizer: "Ah, está aí a homossexualidade!" Detesto este tipo de raciocínio. Mas sem dúvida se tem aí uma das condições, não a única, que permitiu suportar essa vida infernal em que as pessoas, durante semanas, rolassem no barro, entre os cadáveres, a merda, se arrebentassem de fome; e estivessem bêbadas na manhã do ataque." - Foucault.

"Fresnel mostrou que a refração processada sobre um prisma em movimento [em relação ao éter] equivale à refração sobre um prisma em repouso, isso se a precisão limita-se a primeira aproximação em v/c. A partir dessa equivalência Fresnel explica o resultado nulo encontrado por Arago em sua experiência em de 1810. A aproximação embutida na demonstração de Fresnel não causava nenhum problema, pois a precisão experimental da época não podia fornecer valores de ordem superior." - Oliveira.


Amizade e ombridade fazendo com que o eixo horizontal se consolide e sirva como fundamento para a espectralidade. A famiglia que como duplicidade do melodrama primordial que se preza por propagandear sua Força, faz com que nos tornemos naturalistas e animistas sem a consciência, sem a razão. Ao conseguirmos logicizar as sensações, classificando-as e dando as coisas seus devidos lugares, num Organon, é ao mesmo tempo que essa falta de consciência constrói um Platô onde se dará o drama. A primordialidade está ali, sobe ao palco onde será apresentado toda a sorte de signos e símbolos, mas nunca com sua inteireza, sempre despedaçada, fragmentada em pequenas mentiras, que ao longo da projeção se torna edificada, pronta também a ser destruída a qualquer momento, levando a óbito sua fundação, trazendo a verticalidade contida nesse jogo da renovação do melodrama. Processo que em meio a guerra fria onde a pobreza e a morte não podem ser combatidas, mas aceitadas como uma construção dada por esse verticalismo que só se mostra realmente no último ato, magnetizado na fita de áudio e tocada no último suspiro, na despedida. O espirito se revela no momento da revolução, da ruptura, antes era a consciência que o travava, burocratizando sua possível saída. É ela que irá assim controlar as forças e energias dessa vontade ontológica. Até o fim, a propulsão que move justamente a obra está condizendo e espiando esses personagens que modificam as relações ao seu bel-prazer consciencioso, do médico que através de uma ética capenga precisa se descolar do povo, da pobreza, para assim respirar em busca da razão. Razão nunca alcançada diga-se de passagem, pois o que liga esses corpos é gravidade das situações, dos afetos, dessa intuição logicizada que também forma aquela cidade. Ao escolher abrir o filme dedicando-o a cidade de Bombaim, o diretor afirma esse processo social que acarreta e na frenagem do espírito, de precisar da necessidade de todo um exército de espectros para que um único herói seja nomeado. O simbolismo que resta depois desse rompimento e que fica ao expectar a obra necessita dessa atenção, de um cuidado espirituoso, uma exigência, a começar pelo julgamento do que é meramente signo, e o que será símbolo. Natural e contraditoriamente, algo que se mostra na linguagem, não é possível sem uma certa consciência de como signos e símbolos podem se combinar, por isso também um movimento contrario a construção do eixo vertical, já que passa por uma automação do plano. A physis é assim biônica até o limite desse palco dramático, filiando-se a física e ao modernismo industrial onde a técnica se consolida. O início e o fim dessa obra precisa construir uma relação com a gravidade para que esses eixos ganhem outras dimensões, e as trajetórias e linhas de força possam curvar e construir caminhos para o rompimento e aberturas, para que a razão exerça a leitura dos símbolos, desfazendo as pequenas lógicas.


Referencias

A amizade como paisagem conceitual e o amigo como personagem conceitual, segundo Deleuze e Guattari. Hélio Cardoso

O arrastamento parcial do éter de Fresnel como explicação cientifica. Thaís Forato et al.

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