A Margem, 1967.

Ozualdo Candeias



"Segundo a primeira explicação [de Pseudo-Escoto] é necessário e suficiente para a validade de uma consequentia que seja impossível para o antecedente ser verdadeiro e o consequente falso." - Kneale.

“É difícil, portanto, entender como Hegesias e os seus podem ser considerados cirenaicos a não ser por uma razão geográfica, a única aceitável!” - Onfray.

A contradição que nos põem em ciência da dialética, e por comparação mimetiza o corpo em suas vicissitudes. Transformação de um em outro, não somente de um membro do corpo que se deforma e se torna outro, mas todo um ser, um estado de espírito e por fim um corpo inteiro, uma massa que se organiza intuitivamente ao redor de um centro. A centrífuga formada com esses corpos sendo lançados para fora da órbita ainda se mantêm pela contradição mais uma vez, agarrados ao plano. Se a moeda, como no filme Lagaan, analisado anteriormente, une aquela tribo para combater seu inimigo, aqui ela se revela não mais como teoria, porem a matéria em seu estado mais grotesco, de sobrevivência. Não é que a morte vem para transvalorar todos os valores, mudar o tietê em aqueronte, mas para dizimar esses corpos que ainda insistem em se agarrar as bordas dessa força que já não os quer mais. A criação positivista, que prorroga o mal e o sustenta com naturalidade em seus jogos políticos, é mostrada por Candeias como a própria morte que como mito se faz personagem, e não difere muito dos outros a quem ela vem buscar, a não ser pelo tempo de tela, e aí estaríamos retomando o puro materialismo, onde só se é, quando aparece aos sentidos. Todavia é a intuição que carrega aquele grupelho, os afetos que gerarão as energias que ainda os movem, e quando conseguem ir ao centro são minimizados em meio a multidão. Do homem mudo, bem-vestido que vai à margem e se torna personagem, boneco de cera, e bibelô apaixonado por uma das residentes, que conhece as ruelas e caminhos, e que não pressente a vontade romântica como ruína, mas também positivismo, o qual também confunde nós a que assistimos, esperando seu casório. são múltiplos os olhares que tocam a matéria aqui, e que irão dizima-la em vertentes que tanto produzirão historia para o espectador mais fuleiro, quanto filosofia para o mais atento; evidente e grosseiramente é um dos cinema marginal, mas que ainda remete a narrativa do clássico, nos exortando a vida simbólica, junto aos limites da cidade, da almalgama do limbo. Assim o campo e contracampo só pode se dar pelo corte, é na montagem que esses olhos saltam e recobrem a matéria, criando esse movimento de empurrar os personagens, o chute da nega no garotão, selando seu romance já no primeiro contato mais físico, e a flor que toma o primeiro plano, e se transforma numa arma de disputa e incisão. É através dessas emoções demonstradas rusticamente que as relações se dão, e é para o fim que elas caminham, e não para construção de nada, pois são corpos que não pertencem mais à sociedade, estão transitando, já em processo de decomposição. Marxismo também não da conta dessa forma material que é e não-é, pois em estado de espírito, onde a racionalidade já deixou de sintetizar e normatizar e o devir corroí o corpo tomando-o para si. Não é o exército de reserva, mas o insumo desse sol-buraco-negro, novíssimas formas de fazer fascismo, no transformismo da matéria. Não eram eles que estavam buscando e idealizando a morte? Há um padre ali em adjunto. 

Referencias

Uma breve história das contradições: de Aristóteles à paraconsistência. Abilio Filho.
Corpo, Prazer e estilo: A ética hedonista de Michael Onfray.


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