3x Tobe Hooper.

O que é o espirito? Muito se usa essa palavra, porem sem muito conceituá-la e defina-la. Diretor em questão nos ajuda a entender o processo de mediunidade, de como espirito não é somente do tempo, mas também do espaço, digo por mais que o tempo se estenda ao redor do espaço, esse consegue produzir formas que não entram em processo classificatórios a posteriori, por mais que se insista com a ciência de que somente o platonismo cristão pode dar conta desses novos seres que surgem nos entre meios de um enquadramento conversando com seu próximo, do vizinho que grita e não é ouvido, da feminilidade que não se encaixa na organização de cena, por conta da sobrevivência submetida e subentendida da cultura. Enfim, entre tantas outras coisas a serem tiradas dos seus filmes, digo apenas uma, espirito é antes de tudo ar, adentra pelas frestas contidas no plano, nos humores que o colam e o articulam, possuidor de inteligência, afeito a intelectualidade, fonte de conhecimento, conector.

"[...]  Observar  um  rastro  no  chão,  um  bilhete  de  uma  viagem  feita  no  passado,  uma fotografia,  assim  como  contemplar um  espaço  em  ruína,  pode  envolver  o  esforço  de pensar na existência à luz das perdas: são situações em que um fragmento, um resto do que  existiu  pode  ajudar  a  entender  o  tempo  como  processo,  em  que  o  resto  é  também imagem ambígua do que será o futuro." - Ginzburg 



epistropheus; axis (anatomia) A segunda vértebra cervical da coluna que forma o pivô sobre o qual roda a primeira vértebra cervical (o atlas), que transporta a cabeça.

“Os mitos se referem às realidades arquetípicas, isto é, a situações com que todo o ser humano se depara ao longo da vida, e vão além ao explicar, auxiliar e promover as transformações psíquicas, tanto no nível individual como no coletivo, de certa cultura. Toda a mitologia se torna, assim, uma forma de tomada de consciência, um elemento para nos identificar. Existem mitos universais e os de cada cultura, mitos iguais para todas as épocas, com novas roupagens, porque o que é arquetípico é o tema e a partir deste tema podem surgir novas formas de colocação.” - Mello.



Eaten Alive, 1976.

Apesar do espaço premeditado, a indiferença perdura. O pequeno e documentado quarto, como se os personagens tivessem sendo observados por um buraco na parede, experimentos de laboratório. É assim que Tobe irá conduzir o filme, como esse domador de leões, bem junto aos personagens, em lugares preparados em estúdio, onde esses corpos saem de um antro e caem imediatamente em outro, carros chegam ao hotel, mas nunca se mostra a estrada, mas uma estranha trilha no mato por onde se chega e se faz caminho ao puteiro, e talvez a delegacia. A negligência de quem observa e nada faz para intervir é o que deixa a atmosfera ainda mais opressora, de cúmplices que não tem potência para a revolução, mas paixão e afeto para manter aquelas relações; o pai que vai em busca de sua filha desaparecida é a situação mais evidente e comum. E o que em poucos movimentos, de como o corpo se porta e se posiciona, demonstra toda uma sensação, agravada pela iluminação que marca todo o tom dessa cinética. Se vemos uma bandeira nazista no quarto do dono do hotel vagabundo não é para meramente taxá-lo, mas para demonstrar que estamos diante de algo maior. É o extracampo que não vem somente pela organização de cena em seu estado físico, mas também espiritual e realista, onde os detratores se confundem, 9aristotelismo) como se fosse um espaço ideal, construído de forma extremamente preparada, mas sim uma antecipação animalesca, antes do macaco que assistimos morrer modorrentamente, temos o insaciável crocodilo africano mais rápido que um cavalo, não é um jacaré. Dessa perversão que vos falo de ver e não atuar. Ou se não é o ver já uma atuação, um movimento? Questão filosófica que perdura até hoje, mas que pelo senso comum, o mesmo que insiste na vulgaridade platônica-cristã, ou do aforismo poético em que cristianismo é platonismo para os pobres, que acaba se afirmando no século em que abre o cinema. Arte que também se aproximará de forma sublime das camadas mais baixas. Da propaganda que chega muito bem a nos, e muito bem trabalhada por ele em poltergeist, da tv que nos educa a mediunidade, ou como Dion fortune revela em sua defesa psíquica, somos todos bruxos, mesmo sem consciência, estamos praticando magia, e o seu relato de um ataque sofrido, por uma profissional de educação aparentemente comum. É desse profissionalismo que o diretor fala, da técnica na construção de um cenário que levara a apreensão de almas, e a seus religamentos entre o que está em presença, fenomenicamente apanhado pelos sentidos, e por isso tangencia, mas não se mostra, a in-diferença. Assim não é um apesar de, mas um mas também, uma certa ambiguidade que se instaura naquele, como em lojas maçônicas, ou a moda de agora, psicanalises esotéricas para novas academias periféricas, ou ainda desse ser tangencial ao plano, tão próximo a ele que some, não tem possibilidades de aparecer por conta do aparato que o distancia de certa forma. A independência e morte, de algo que ainda não se afastou do centro, da forma; a substância? A reptilianidade encontrada nessa competição pedagógica, de vinganças sorrateiras, mesmo que o abandono do macho esteja as claras, e da premonição do SOV, da abertura ao neoliberalismo.



Spontaneaus Combustion, 1990.

As curvas que o corpo faz para se moldar ao devir, onde as questões e energias piramidais e dialéticas de segunda navegação, (o advento de Platão na história) só cabem como recalque. A abertura de vez a cultura do estrupo, ao tão cedo e tão tarde da revolução francesa, no útero das tentativas de comunismo. Essa nova arma subatômica que dizima sem deixar rastros do assassino, e de corpos que perambulam sempre na iminência de uma explosão. Não se sabe da doença, mas especula-se sobre ela, de uma síndrome que leva esses corpos já moldados a serem transformados em insumo. A dificuldade de orçamento é aqui levada as últimas instâncias, transformada em linguagem, o corpo é fisicalidade pura, consequentemente physicalidade suja, de filiar-se a partidos fascistas para se safar, continuar a produzir imaginários, única forma de escapulir do meio é através dele mesmo, cultivar massificar a técnica. Ao pestanejar em falar de destruição, o comunista vira os olhos e dá as costas para a anarquia, o oportunismo cresce e assume a lógica do esteticismo, caçam-se políticos, mas não banqueiros. O atomismo esta assim tanto para mística como para a ciência mais grosseira e empírica. Quando místico, é a reação entre o choque de corpos que revelará a proporção do espaço em que se está inserido, o enquadramento aqui como um meio de disfarçar o extracampo, a teoria da realidade e das potências idealistas que emanarão das contradições desse corpo se esgoelando para sobreviver, mesmo em ambientes aparentemente não hostis. Quando ciência, é destituição da physis e, portanto a criação de toda uma indústria de terapia, para que esses novos corpos diminutos continuem sendo moldados ao círculo. Sim, não há um esquema piramidal no capitalismo, por mais evidente que assim ele se mostre com as relações escravistas, é com essa nova lei áurea, a de que o comunismo é inviável que se moldará as triangulações interiores, por mais que somos empilhados e encaixotados em verticalismos, o capitalismo se alastra é na horizontal, através da intuição e do subcosnciencia. É uma cultura que não fomenta a consciência, mas trilhos uniformizados de aí sim imagens diametralmente piramidais, por mais que estejamos diante de planificações autômatas. Ao vislumbramos a dialética e nada poder fazer por estarmos presos em trilhos que nos levam a observação dessa geometria mística nos pondo em especializações, movimentos automáticos, nessa engenharia do plano a qual somente um xamã poderia redesenhar. A salvação só poderá vir pelo meio, pelo ponto em equilíbrio entre as contradições, no axis perfeito, na curvatura desse horizonte que se mostra completamente empalado.



The Mangler, 1995.

A mediunidade parte assim de um certo ceticismo, além do comum não ter fé, mas a negação do que esta diante de si. Uma crença as avessa, para uma outra sorte de religiosidade, a necessidade que se põem numa outra instância, outra dimensão; os desejos são assim um movimento no vácuo, sem atrito. O que atrai esses corpos no ar rarefeito será sempre uma chama, por mais pequena ou impotente ela guiara a matéria para fundá-la em alguma cultura. Nesse espaço onde se há pouco espírito, ou onde ele é apenas um ponto também impotente, será sempre a intuição que puxará essa matéria, por ser energia cardinal e quente, a chamuscar o caos e trazer certa iluminação ao ambiente escasso, enquanto o espirito é em primeiro momento multiplicidade trocas onde a feminilidade se confunde a masculinidade, a relação do detetive e aspirante a ocultista, a inocência e a noção estrita da realidade. É um filme bastante centrado no personagem, desse corpo que ainda flutua, e sem direcionamento, terá que exercer sacrifícios e passar por rituais que o apresente novamente a si. De uma forma ou de outra, se antes não for pego pela geometria traçada pelo ar que se expande e contrai, desenhando esquemas nesse nada, a tendência é o ceticismo perdurar quando a matéria se atracar com o fogo. Tobe deixa a triangulação abstrata mais uma vez em seu sentido sumido, planos que percebemos estar rodeado desse espaço, ou canal que da vazão ao poder se formar, ora me parece que é o próprio ceticismo que cria esse lugar, ao emanar de si uma não vontade de se prender a algo, mas a continuar vagando a esmo. Portanto, é um filme mais sobre a investigação de si, do que a mediação tomando conta do plano. Se nos filmes vistos anteriormente a força esta para dentro oprimindo seus entes, aqui é ela que emana deles, oprimindo as bordas e margens do plano. Uma nova forma de contradição, pois a imagem-tema, é das mulheres que não conseguem se rebelar e escapar desse enquadramento. Pois estão mais próximas da ação, do movimento embutido pelo detetive, da investigação e desse assemelhar com a monstruosidade através de seu passado mal resolvido. A conexão dialética esta dada, a malignidade será liberada pela conservação desse atracamento intuitivo, do espírito sendo esquecido pelas sensações que essa força atrai. Esse respeito que o diretor traz pelos atores, da energia e conexão criada por eles demonstra essa necessidade de se fazer do plano um lugar de ninguém; o momento do enfrentamento com a máquina mutiladora, onde a câmera assume a lateralidade, sublime-estado de exceção, revela assim que a vontade e o gosto pelo desconhecido, e pelo pacto é tamanha que os corpos se redimem e diminuem numa proporção magnifica. Força-se assim a mudança somente individual, da reforma que engole a revolução, da intuição solapando o espirito. A regulagem do que entra e supostamente sai e é eliminado produz amalgamas imagéticas nessa energia cardinal, ela é em seu estado quase ulterior de primeira fase uma energia fixa, homuncular, as cores que tentam saltar do goticismo.

Referencias

O conceito de extra-campo no cinema: o plano do invisível.

Anatomy of the Human Body. Henry Gray.

Amaterasu e a autoestima. Leonardo de Mello.

 

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