Remorques, 1941.
Jean Grémillon
"Essa teoria pode dar lugar a uma teoria das classes que evoca Platão, pois oferece um modelo de desenvolvimento por etapas da formação da classe com o qual a história deveria conformar-se e, caso a evidência se oponha, ou se corta a parte válida ou se introduz a “falsa consciência”." - Thompson.
"Durante o presente século, a operação (ou seja, a remoção de catarata) foi feita com frequência suficiente para que relatos sistemáticos e precisos fossem coletados. O paciente, ao abrir os olhos pela primeira vez, tem pouco ou nenhum prazer; na verdade, ele acha a experiência dolorosa. Ele nota apenas certa massa móvel de luzes e cores. Ele se mostra incapaz de distinguir objetos pela vista, reconhecê-los ou nomeá-los. Ele não tem nenhuma noção de um espaço com objetos nele, embora saiba tudo sobre objetos e seus nomes pelo tato." - Davis
Esta exacerbação do que emana da matéria como um símbolo, que em seu primeiro impulso demostra toda física e realidade em que está contido, como holograma ou representação, tanto da coisa em si, ou sua essência, quanto desse todo que o revolve. As energias que emanam desse ser que esta entre, e antes dessa imagem projetada, não condiz diretamente com esse todo, o qual, apesar de conte-lo, esta fortemente o excluindo com sua superestrutura, que só poderá ser alcançada por um movimento ideológico. O lar se faz como um lugar para essas desavenças indiretas entre esse todo e a microestrutura se resolverem por conversa, que nunca pode ser levada a sério, no sentido estrito da palavra, do verbo e da própria linguagem, que se faz mais firme do que os seres que abocanha. Digo esse todo também tem seus pontos cegos, mesmo que acorrente a imagem do ser diretamente, indiretamente não o apanha. Nesse momento o que esta nas mãos, invisíveis, desse sistema quase ulterior, é algo que também se esvai por entre os dedos, como um líquido, que só poderá ser contido por um recipiente, algo que de forma ao holograma, e que não o arrebente de seu corpo. Esse fio de prata que ainda faz a ligação entre o corpo e agora, a imagem formulada, pode ser rompido por uma lógica inversa, mas que muitas das vezes só será cortado pelo destino, pela morte. Isso que é o mais simbólico aqui, do oceano tempestuoso, e da câmera conjuntamente em seu sentido documental entra em estado de êxtase, acompanha o cenário, e constrói assim a dialética entre o que filma e o que a prende como um fio de prata, causando um estranhamento em nós pelo estado em que permanece a acompanhar os corpos, ao passo que também negligencia outros, portanto, a linearidade que se segue aqui e mostra o caminhar desses personagens, como na famosa cena da praia, onde se prioriza o flerte, e a negligência desse outro, da matéria e do fundamento que faz com que aquela cena se realize, e no mais da realidade do que somente um filme, da câmera que ainda documenta, ensaiando a cena devidamente atuada para além do quadro. A matéria que entra em estado de exclusão e se esfria com o passar do tempo, principalmente numa mistura de ar e fogo, terá seu espirito exorcizado, onde o ar sempre se abrange mais que os outros elementos por sua expansividade(porque os pois modernes excluíram Anaxímenes?). A dialética toma a culpa, mas não sabendo por intuição continua seu progresso, que é mais dualista e consequentemente cíclico, do que trinário e com um rumo mais racionalizável. A cena da praia é memorável nesse sentido, pois, após a turbulência do trabalho em alto mar em meio a tempestade, se opõe agora uma certa calmaria, que aparentemente falseia as relações que estão em jogo ali. A força que une os amantes é imantada pelo símbolo, mas enfraquecido pelas dualidades, se torna tão rarefeito que por ansiedade levará ao trágico da narrativa, que no baile de casamento no início do filme se mostrará como uma mimese do trabalho masculino se fazendo como guia ao aparato que resolve os símbolos a sua maneira, de recortar fios e laços, e dar forma a idealizações, perfazem a imagem-alma, num processo quase por completo intuitivo. Esse sempre quase é a contradição que gera pontos cegos e podem perfurar a alma nesse movimento em que é levada a fórmula, mas que numa insistência onde o positivo se faz antes do negativo, esse movimento nunca ocorre para dar lugar a especulação na imanência, no símbolo sendo soprada pelo ar quente da Panta Rei, a chama heraclitiana. A câmera não equivale às forças, mas o olho que a acompanha transformará em cinematógrafo dando mise-en-scène as energias, reencontrado o esquecido pela superestrutura.
Referencias
A relação entre base, superestrutura e consciência social em marx. - Lawrence de Melo, et al.
A inter-relação de sensações para a produção do conhecimento; em torno da carta sobre os cegos, de Denis Diderot. - Fábio da Silva.
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