Ambulance, 2022.

Michael Bay

"O homem suporta a vida pela possibilidade que dispõe de matar-se. A morte é o que torna a vida possível. A vida é real e a morte simbólica, e se o real é impossível, viver é o exercício da impossibilidade. E o suicídio é uma escolha capaz de dar um significado à vida quando ela chega ao limite da impossibilidade" - Carvalho.

"Devoção apaixonada a um companheiro, filho ou tribo é tão natural quanto o impulso de enfrentar ladrões, inimigos, concorrentes e predadores. Agora que a agressão da sociedade foi institucionalizada em escala nacional, ela precisa ser ritualizada em escala pessoal por esporte." - Carroll.


Afeto que nos põem a rodopiar em torno do objeto desejado, numa certa empatia movimentando-nos centrifugamente, numa órbita que nunca cessa. Em que momento o desejo deixa de ser busca pelo prazer? E se não é toda a linha empirista um exercício de mau-caratismo, e consequentemente uma contradição, um sentido inverso dessa empatia que o colocou em órbita, construindo toda uma gravidade e um ecossistema. A ambulância mais parece o mortuário de o ato de ver com os próprios olhos de Brakhage, um lugar que nos exauri e coloca-nos numa forma de transe. Diferente do filme experimental em suma, aqui a propaganda é mais próxima, e entra em contato direto com a obra, afinal não é uma sala de autopsia, mas uma ambulância, espaços correlatos, mas com sentidos diferentes. E se Tony Scott utiliza da superfície desse limbo, onde se busca principalmente o entendimento da morte como no filme de Stanley, Michael Bay irá impor um sentido mais centrista, onde a vida ainda precisa ser conservada mesmo em meio a guerra, mesmo que a linha-força que ainda prende o corpo ao objeto-desejo, se rompa. Portanto, todo o trabalho de sucção gerado na experimentação desse ato de ver, onde o corpo é traçado pela ciência para condizer sua direção e destituir a religião, é levado as últimas aqui, por não possuir uma vontade airada, porem uma única explosão em continuum de pneuma. A fadiga bate de outra forma, pelos caminhos mais intuitivos do que intelectuais. Se a lógica que promove esse movimento ditado não pode ser racionalizada pelo tempo que decorre, então somos levados a nos aproximarmos desse objeto em conjunto, somos lançados também à órbita, sem impor uma distância entre quem assiste e o próprio filme. São universos que se misturam assim, e não tem mais capacidade de se observarem, não produzem mais dialética, mas um único sentido em progresso, que se expande em conjunto para alguma direção. É necessário então separar a physis da natureza, onde os pre-socráticos retiraram seus espíritos e foi transformado ao longo dos seculos na física, mais matemática do que simbólica, pitagórica estritamente, se separando da natureza, agora a encargo da teoria da evolução biológica. Essa nova era esquizo que move esse ecossistema de maniere a separá-la do todo dando uma nova espécie de vida dupla, evidentemente pôs socrático ad aeternum e perpendicularmente antifilosófica. Todos os prefixos que veem como rejeição ou afirmação das forças são contra ao que vem antes e depois por um movimento de recalque que simula o suprasumir ao espelhá-lo teluricamente num movimento de reflexão direta. E por mais que se criem novas teorias da moeda, tentando traçar uma leitura positiva sobre ela, estetizando seu poder e mantendo o que é de mais pernicioso, dessa vida sem sentido, mas que continua progredindo mesmo transformando o lugar de recuperação do folego e da vida num mortuário ambulante onde se fazem até operações nos encarregando de arcar com esse sistema de saúde financeiro de uma roda da fortuna girada por mãos também caóticas que não pode ser entendido, mas se insiste em poder domá-lo. Com tudo isso, como poderá o afeto produzir desejos estereis que não busquem prazer e uma nova lógica para a humanidade? Existe uma singela diferença também entre o virtual e o digital, e o próprio dinheiro que implode através de inflações nos transformando somaticamente com seus zeros a direita, anulando os corpos e entregando somente espectros num limbo totalmente tecnicizado.


Referencias

Ideação suicida: Manejo na Clínica Psicanalítica. - Dayse Pereira, et al.

Liber Null e psiconauta. Peter Carroll.

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