3x Hawks

Enquanto os fracos trocam figurinhas e a Força permanece atuante como motriz desse sexo, a narrativa pode desvirar-se e tomar as rédeas de si própria constituindo-se como autônoma. Se não podemos desejar sermos revolucionários, por conta principalmente de sermos constituídos de matéria frágil, a logica assumirá nossos corpos nos automatizando com uma psicologia de massas que nos classifique como algo único, onde a diferença é meramente estética e sem ética alguma. Não há mais espaço para verdade, ela não é mais útil a contradição, deve permanecer no Tempo-paradoxo, da definição socrático-platônica perante a classificação aristotélica. a metáfora como principal culpada de nossa inociência, fazendo da metonímia principal ferramenta de lapidação de falácias. E o sujeito ainda poderá entender algo diferente dessas figuras?

"Civilizaram os confins da Terra para conquistar um campo de expansão para a sua ambição rasteira, criaram uma confraternização de povos que é apenas uma confraria de ladroes, e diminuíram as guerras para ganhar muito mas em tempo de paz, para elevar a nível extremo a hostilidade particular e a guerra infame da concorrência! Quando é que fizeram alguma coisa por puro humanismo, com a consciência do que opõe o interesse geral pelo particular? Quando é que se mostraram morais sem estar interessados, sem acalentar no fundo motivos imorais e egoístas?" -  Engels.

"Há uma coisa que, de todo modo, é certa, se é que alguma coisa possa sê-lo, é que a ideia mesma de real comporta a exclusão de todo sentido. Não é senão na medida em que o real é esvaziado de sentido que nós podemos apreendê-lo um pouco [...]" - Lacan.

"Geralmente, o Estado fica empobrecido quando envia suas tropas para empreender uma guerra em local distante. Manter um exército a uma longa distância empobrece o povo. Onde este exército, que está longe de sua terra, estiver estacionado, os preços de artigos subirão; e o preço alto esgotará os recursos financeiros do Estado. Quando os recursos do Estado estiverem se exaurindo, os impostos tenderão a aumentar para sustentar este exército que luta longe de sua terra."  - Tzu.



To have and have not, 1944.

A arte da guerra é a arte da sobrevivência, ou somente a arte mesmo, em sua essência, logo antifenomenica. Se contra a manifestação ela nunca poderá ser prática, mas somente filosófica, não servindo ao espírito do momento, do tempo presente sem um futuro e passado, a qual o zeitgeist necessita para perdurar, mesmo sendo a entidade que se desenvolve na cultura num curto espaço. Temos aqui a noção macroscópica abrindo o filme para sermos jogados em seguida na microscopia. Não teremos mais a grande noção do plano cartesiano geopolítico, mas seremos remetidos a esse externo em pequenas doses, suficientes para nos deixarmos cientes do andar do mundo. E são nesses detalhes que a pequena vida reflete diretamente a grande Vida. A dança econômica altera as relações que se remexem e retorcem em nome da sobrevivência. Deixar que a guerra hibrida resolva a situação desses corpos com vontades de paraísos, de união com o oposto sempre por vias terceirizadas é pedir em uníssono pela fragilidade da consciência. o bêbado inocente é assim o personagem chave para entendermos essa dialética que continua ao decorrer da (nossa) história. Em nome do espaço-tempo, desse pequeno espaço onde esses corpos se mantêm afetuosos e felizes, a inocência perdurará em seu sentido mais positivo, por mais desgraças que ocorram são meros obstáculos a serem transpostos, algo para ser vangloriado depois. A reunião desses personagens, entidades sem essência, deixadas por conta do macroscópico, ausente em sua presença que emana dos poros, das vielas e bares que não tem muito tempo de tela, mas o grupo de dissidentes que o perseguem em nome de alguma lei, e impõe um patriotismo forçado. A vilania é assim o único ponto de partida, como todo melodrama bíblico. A conscientização é portanto um espantalho, para esconder a inconstância da revelação que nunca se da por inteira, mas detalhadamente em fragmentos. não narrativamente linear, apesar da filosofia da história, mas enigmaticamente, tendo a "magricela" como símbolo disso. Da femme fatale como antifeminismo, e uma propagação do masculino, única saída, da vilania contida pelo herói, contudo isso. E falo da filosofia como um ponto de vista vacilante, da própria macro história, contradizendo a raiz platônica da fuga da inconsciência, da caverna. Essas consciências que alcançam a realidade física e tomam a materialidade advinda do século anterior, do romantismos virtualizando a matéria, aqui nesse Hawks, separando ela da physis, para ser cientificada contraditoriamente como magia caótica. Esperamos que os consulados e a democracia nos salve assim em suas falácias carpinteiras e capitaneadas.



Hatari! 1962.

A consciência se esvaindo pelas esquinas do plano. A construção do que conecta esses planos são o que mais dificulta sua análise, a princípio não há nada que os configura numa única obra, são cenas soltas, em separado, que possuem um mesmo espaço estrito, Tanzânia, mas que acarretam amálgama de energias opostas. Num olhar menos atencioso diria que a política religa essas cenas, porem ela não está ali senão como forma econômica, a subsistência do grupo. Essas camadas do que fica de fora nessa construção, do que escapa no entre atos, diversifica a matéria, e nos impõe a questão se cinema é realmente uma arte materialista. A imagem advêm de terceiros, como a fotografia da própria personagem em diegese, a imagem-movimento do cinema nunca se da sozinha, já é esse recorte em conjunto com a narrativa fundamentada subjetivamente. O levante ocorrido durante esse caminho das energias esquecidas no processo de esvaimento faz com que a consciência se molde e se agarre a Força, consequentemente ao poder, de tribos que subjugam outras tribos para que o Trabalho perdure. Não é portanto através do didatismo que isso ocorre, mas pela linguagem, desses conectores que juntam as cenas. Como dito, não estão para empiria, mas a encargo de quem assiste, e sempre uma opressão sobre os ombros do indivíduo. As questões sociais são postas de lado para a universalização e a classificação das energias. Mesmo que algo escorra, o que permanece acaba o nomeando-o através das contradições e da sua antítese gerada no processo de concepção das organizações. Ou seja, o plano que permanece e põem em jogo os corpos, esta sempre excluindo algo, mais frágil e talvez grosseiro para ordem daquele espaço que ordena tudo dando uma linearidade as energias. Distinguindo também a Força, que só se da em um sentido sempre messiânico e revolucionário. Portanto, são filmes reacionários os do Hawks, conservadores que naturalizam essa ordem, a do horror se fazendo comum e lei. Personagem que naturalizam o lucro e a desforra da exploração até para se fortalecerem, de animais que se vangloriam de alguma racionalidade. Existe assim um certo sufoco para que as cenas se acabem, geralmente com um fade out, abrupto, como se o filme como um todo estive parindo e repelindo essa constância de movimentos que ficaram subjugados nos revelando a força por detrás do mais gozar, e de desejos desenfreados de um ritmo que se afasta da própria natureza, a física se mostrando mais poderosa. Não entrando assim em questões biológicas e químicas, mas principalmente de mecânica, de quem está mais apto a sobressair nesse sistema delineado de triangulações: o cético menos religioso, diria todos ali, inclusive os subjugados, enquanto o idealista, ninguém, exclusive os subjugados, já o restante da questão fica a encargo dos positivistas e pessimistas, para toda a sorte da mediocridade, da arte.



Rio Lobo, 1970.

Somos outros entre quatro paredes, a matéria no íntimo se torna algo que muitas vezes não condiz com a superfície, ou o que representamos a esse outro que também compartilha conosco essa mesma falácia do duplo. Aqui a consciência também metamorfoseia de uma forma bem humorística como nos outros filmes; a guerra não é uma tragédia, mas um aval para se construir uma economia paralela. Se a pornografia é mal vista e não pode ser usada eroticamente, pois seu intuito é relativamente oposto ao da arte, de produzir uma certa comunicação mesmo que abistrata, é nela também que conseguiríamos encontrar material para a extrapolação. Digo, deixar o centrismo místico, para nos encontramos com o terrorismo da superfície. Ela que é destituída a cada plano, pois temos momentos de ternura mesmo que a desgraça perdure e se desenvolva pelas redondezas do quadro. O veterano é tratado de forma amigável em meio ao bruto, é levado a considerar as forças que o opõem e forçar política para que esse terrorismo não perdure, e a contemplação do horror possa se dar pacificamente. Se o filme abre praticamente dentro de uma viola onde somos pegos pelo clipe, pela superfície da política-sofistica que de forma poética seremos tragados para a metafísica desses quartos e salas que nos darão a política-filosófica, confirmando e reafirmando a doença contida entre o positivo que cai na representação e o péssimo em seu fundamento. Só poderá permanecer em sentido social o que é útil, e portanto justo, num espaço que não pertence ao feminismo, porem a mais pura demonstração da força, do místico centralizado se usando da arte para prevalecer. O estrangeiro e mais jovem precisa ter a experiência da traição, assisti-la de perto e observá-la para que o crepúsculo possa se dar nem que seja por adaptação, simbolicamente oras. Por isso o tempo é tao importante, mais o da contradição do que o do paradoxo, pois é de jogos entre opostos de que estamos falando, politica afinal. Do herói que precisa ser militar, de fazer negócios e construir amigos em espaços contrários aos seus para ganhar terreno e alcançar inimigos ainda maiores e traiçoeiros, se conectando assim a revolução. O grande risco desse movimento é o progressismo, que geralmente, contraditoriamente, é cair novamente no mesmo, no ciclo adialético e acabar assumindo a falácia dita anteriormente ao se começar a buscar pela antítese da terceira via, da harmonia entre esses opostos. É obvio que existe um ponto de equilíbrio que é a sua própria inexistência reflexiva, mas ao se buscar uma representatividade desse ponto, a metafísica cai em revertérios cabulosos de retorno a caverna, a fim de pedagogizar esses que ficaram no temor, ainda presos ao terrorismo. Os bandidos iniciais que se tornam ajudantes do herói, e que libertarão a cidade, refundando-a é a síntese disso, da inexistência da consciência, ao se mostrar metamorfa em suas vicissitudes. Cinema é espiritualidade, um grande laboratório para construção de corpos da imagem-aquém-pornográfica. Como o útero que precisa se moldar ao que surge dentro de si, materialmente dominado pelo externo do espírito, das insistências do positivo estético.


Referencias

Jovem Engels; evolução filosófica e critica da economia politica (1838-1844). - Felipe Contrim.

As quatro dimensões do despertar - sonho, fantasia, delírio, ilusão. - Marco Jorge.

A Arte Da Guerra - Sun Tzu


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