The Cathedral, 2021.
Rick D'Ambrose.
"O conjunto das coordenadas positivas – autor, data, técnica, iconografia, etc. – não basta, evidentemente. Uma imagem, toda imagem, resulta dos movimentos provisoriamente sedimentados ou cristalizados nela. Esses movimentos a atravessam de fora a fora, e cada qual tem uma trajetória – histórica, antropológica, psicológica – que parte de longe e continua além dela. Eles nos obrigam a pensá-la como um momento energético ou dinâmico, ainda que ele seja específico em sua estrutura." - Didi-Huberman.
"Como que raptado, arrebatado ou possuído de Deus, (o ser humano) entra silenciosamente na solidão, em um estado que desconhece perturbações e não mais se afasta do ser dele (do Uno), nem gira mais em torno de si mesmo, imóvel, idêntico a própria imobilidade." - Plotino
Entre ato e síntese, a história que se mistura ao ato se tornando ato em conjunto. As partes de um todo, dos planos fechados aos abertos, mas nem tão sempre abertos, são poucos aqui. No sentido quantitativo e qualitativo. Quando o filme nos da o passeio na praia é tentando nos por nas potências do que poderá ser outros tipos de relações, entre os personagens, mas em conflito sempre com o espaço em que habitam, me lembrou muito Skinamarink nesse sentido, muitos corredores, portais e portas. O olhar de uma criança, mas sobretudo também de uma velha criança, o pai, da narração em off que nos coloca em caos com as informações, e parabolicamente afirmarão essas imagens em VHS que assombram a montagem. A relação do plano milimétrico e conceituado, com a pornografada propaganda, travando o embate que já nos é velho e conhecido. Do erótico e do vulgar, da mulher que sempre esta a distância do homem, e como Forma, precisa ser desmistificada, tornada real, não para sua liberdade, mas para a construção de novas formas, que a delimitem positivamente. A antítese é posta como empecilho e não propagação, as imagens que acometem a montagem a desqualificando, não vem para contrapor, mas corroborar, torna-la massificada. Um filme de festival consequentemente. Enquanto “No Shark”, outro filme que se assemelha aqui pela produção mais independente, tínhamos essa vontade máxima pelo tubarão, do desejo como eterna potencia, já aqui ele vem para apaziguar e conservar as relações. O extracampo sempre presente lá no filme de Clarke, é aqui nunca presentificado, mas tornado ausente pela justa medida. O artista como politico, o político como herói, herói como poeta, poeta conforme assassino. O campo-contracampo entre o ventríloquo e a sua vítima ressoa bem como exemplo, utilizando-se de seu demiurgo constrange um dos espectadores em quanto em campo depois de um longo tempo travada no artista contando sua narrativa, sua piada, para quando resolve mostrar a vítima num plano também médio, séria, e envolta em risadas alheias. Precisa-se criar o novo assim, sempre numa mediania, polida e mercantilizável, com o mínimo possível de inventividade, das ferramentas que são controladas pelos que ditam as regras do jogo. Estudar filosofia é assim um processo para ganhar o poder novamente da criatividade perdida, apartada pela metafísica criado nesse empirismo maul ajambrado pelo homem e presenteado a sua amada na forma da criança, ou melhor, de filho. O movimento reverso será visto como oportunismo, já que a ideologia dada por essas ferramentas são mais físicas do que aparentam ser, sente-se na pele as mudanças do tempo, não desse que nos envelhece, mas aquele como memoria e tradição capazes de moldar os cromossomos, as vicissitudes do corpo, e interpreta-lo como somente maquina, e não como energia, trabalho como produção otimizada e não como construtor de relações, de catedrais que não nos encherão de espíritos, da imigrante que não deseja o outro. Todasvias de uma câmera que aponta e julga, esperando que o corpo se mexa, diferentemente dela. A excentricidade do milagre vem nessas arestas que restam entre o filme B sempre a espreita na coxia e o filme A qualificado pela câmera, na derrapagem que a imagem faz bruscamente nessa curva acentuada, ainda insistente e limitante em seus graus agudos.
Referências
Uma basílica de memorias: o texto escrito como possível componente da mnemosyne warburguiana. - Rafael de Lima.
O Uno e os éons: A soteriologia em Plotino e em sua polemica antignostica. - Roberto Gallego.
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