3x Ferrara
Utilizando Ferrara para me ajudar a reunir ideias e tentar resolver meu problema com o conceito substancia. Percebendo ser um questão subjetiva, portanto histórica, nessas analises e fichamentos vou descobrindo a imaturidade e a falta de arcabouço que ainda temos, ou melhor, não temos, para implantar uma outra forma sociedade menos desigual. Então o papel do artista por enquanto ainda é esse: de levar o espectador a ser guiado para ser perdido, do filosofo médico mentindo e omitindo do grande mal para então nos abandonar a desgraça santíssima, o machismo é essa benção seja pro maul ou pro Bem, e sempre em busca da facção central. Assim o capitalismo tem respaldo em nos, na pluralidade desejosa, dos diversos gêneros que sempre rementem ao centralismo melodramático. É o deus que nos assiste. Se em Fear City a documentação ainda é a ferramenta para se dar com esses corpos buscando por identidade, em New Rose, essa ferramenta é sumida-implodida, para retornar diferenciada em Zeros and Ones, do plano sublimadamente reificado.
"É possível dizer, [...] valendo-se de uma analogia com o cinema, que a câmera enquadra de início a figura masculina (3ª. pessoa), depois a feminina à sua frente (2ª. pessoa), e em seguida se volta para si mesma (1ª. pessoa), para analisar suas reações diante desse quadro, ou dessa mulher, que perturba. Muitos já notaram que é uma situação de exclusão ou rejeição [...]: o homem se iguala aos deuses porque está tranquilo diante da jovem, com acesso à doçura da sua fala e à sedução do seu riso, enquanto o ‘eu’ que os observa e diz o poema está, senão física, ao menos ‘espiritualmente’ distante da dupla. Insinua-se assim, mas sem se confirmar de modo explícito, o sentimento do ciúme ou, para usar a expressão popular, da dor de cotovelo, quando não se tem o amor correspondido ou se é preterido. A proximidade do casal e seu entrosamento têm relação direta com a dor de quem os vê." - Malta.
"Por toda parte alhures o mesmo: uma imaginação penosa me domina; acho mais simples, ao invés de domá-la, mudá-la; a substituo, se não puder por uma contrária ao menos por outra. Sempre a variação alivia, dissolve e dissipa - soulage, dissout et dissipe. Se não posso combatê-la escapo-lhe, e fugindo dela desvio – fourvoye -, despisto - ruse: mudando de lugar e de ocupação, de companhia, me salvo em meio à multidão de outras ocupações e pensamentos, aonde ela perde meu rastro e me perde." - Montaigne.
“intencionaram estudar o assunto segundo as Escrituras, isto é, que o Pai, Filho e o Espírito Santo, por inseparável igualdade de uma e a mesma substância, insinuam unidade; assim não são três deuses, mas um só Deus.” - Agostinho.
Fear City, 1984.
O espaço usado por Ferrara é o de reconduzi-lo para outro estado, dar uma outra forma ao que comumente se vê, a cidade por exemplo, nos permitindo ao cíclico pleonasmo. Primeiro com tomadas aéreas para depois ao chão e quase sempre a noite. O terrorismo como é nomeado pelos donos da cidade, mafiosos e justiceiros realçado pelo diretor, se igualam aos policiais nesse sentido, e único sentido de levar e conduzir a cidade ao meio-termo, fazer com que a “economia” perdure, os costumes e o machismo do bom se satisfaça, de quem se encontrou com a morte e agora pode administrar a “economia”. A verdadeira morte precisa assim ser anulada pelos que viabilizam o progresso e a conservação. Um filme sacana, portanto, ao lidar conforme uma metáfora sobre a própria indústria de cinema, ou como os ingênuos ainda analisam o capitalismo apenas de forma macroscópica. A produção antimaterialista se da nessa logica, de se enxergar no outro apenas como outro a parte de nos, contraditoriamente e insanamente como pede as trocas nessa cultura, o ponto de vista isolado e apenas metafisico se revela também próximo a essa substancia emanada da relação do individualismo neoliberal. O filme toma desse modo o ponto de vista da normatividade, ele mostra o tal terrorista, mas nunca de forma aprofundada, mas superficialmente, e de como ele inflige diretamente nos movimentos desses corpos, e do trabalho. É como se ele tivesse sido criado pelos próprios personagens e heróis, numa visão premonitória do artista/filósofo, do mal sendo criado dentro do próprio bem e da ordem, da mulher feia e gorda que não serve para mexer o trânsito, mas que de forma caricata nos adverte desse poder exercido por elas sobre a cultura. A mulher é o primeiro patriarca, o totem devidamente projetado e consumado, a mercadoria em sua espécie sublime. A forma é de grande importância também aqui se igualando ao espaço dos espaços sempre fechados da cidade, inclusive nos passeios pelo parque, é tudo muito bem delimitado e delineado pelos fantasmas desse meio abstrato e vampirizado. A ambiguidade formal de ferrara vem disso, de praticamente documentar aquelas relações com todo o pesar da censura, carregando a obra ainda mais com espectralidade, para fazer um filme B televisivo, e beirando a art house como veremos mais a frente se confirmando em sua filmografia. É o que resta para o artista são as casas de terceiros onde se pode construir de maneira miliciana e barroca maneirismo que poderão ainda causar provocações e espirito em alguém mais atento, sobretudo dar importância a moralidade. A arte é então mero produto sobre a mercadoria, substancia da substância.
New Rose Hotel, 1998.
A abstração que da o sentido e a cíclica silogística, dessa dedução substanciada. As camadas dos planos que intervém, e se imiscuem um no outro carregam o conceito dessa casa que é agora aberta ao público, ao comum, diferentemente de 84, agora estamos em 98, mas, ao mesmo tempo que se abre a espectralidade, e que ela se torne mais matizada, o hermético se eleva, as relações mais privadas trazem esse caos, e que ainda sim é contido pelo plano fílmico-cartesiano. Ao passo que lidamos com pares, ou o que parecem ser pares, negamos o todo, os impares, os próprios fantasmas que fundamentam essa substancia vão sendo suprassumidos para só restar a mais pura logica. Nesse passo, a ação se torna impotente, pois deshorizontalizada começa a produzir vertigens, mesmo quando o filme ainda esta em desenvolvimento numa suposta narrativa linear, do golpe sendo ensaiado. A segunda parte assim, que é um revisionismo do próprio cinema de ferrara, do barroquismo sendo desmanchado no subjetivo do personagem incógnita, as premissas se estendem e a definição não só de sua filmografia, mas de todo um cinema é dada. De "Day of Wrath" de Dreyer a esse aqui temos os pilares do que é a ficção cientifica, desse outro disforme sendo observado por lentes terceirizadas, do melodrama bíblico em efeito. A consequência, a conclusão é sempre essa explosão que danifica o sistema antes dado, e que ainda é um efeito, uma magia insuperável por nos, como o título brasileiro afirma, enigma do poder, de um novo deus sendo construído, (Montaigne que vos dirá) para que essa cultura cyberpunk seja consolidada na guerra fria. Do terrorista caçado em nova York por justiceiros antipoliciais, para terroristas entendedores de negócios multimilionários. E a cada vez que se aprofunda num plano, numa imagem sobreposta, é como se saísse em outro espaço-tempo, da raposa do Walken, psiconauta suicida pronto para qualquer barganha com a morte. O poder nunca é alcançado assim, passando por um processo de aprendizado subjetivo e se esgueirando em novos planos e miríades do ser, da fraqueza e covardia da multiplicidade. Não é um filme que consolida o conceito como a metafísica de muitos artistas mais neoacadêmicos fariam, pois não há nada a ser vendido aqui, senão, a potência filosófica sendo anunciada, do homem aprendendo a ser broxa. É o que temos como ensinamento, e formalmente moral como uma fabula a qual ferrara muito bem constrói em sua arte, do jogo entre fantasmas e dessa busca desenfreada pelo desconhecido sendo aos poucos sugado pelos poros dos planos, do extracampo dentro do próprio campo, o anticinema sendo construído na intangencial invisibilidade, do formalismo e do clássico sempre em estado de renovação, e do Uno sempre ele mesmo. Para que talvez fique mais claro: a refração taoista da era de peixes resvalando na técnica, na ciência e na arte/religião; não avistamos a casa, porem sabemos que esta ali diante de nós, da pandemia sendo apenas comunicada por dispositivos eletrônicos; a formação do cinema em si, oras. Há algo que não se move, mas que ainda não se sabe exatamente o que é, e que a pirataria grega começou a investigar uns milênios atrás. A substância não pode ser encontrada nunca? A verdade é a própria falácia? Quando, como e onde o múltiplo e o Uno se conectam? e se chegam a se conectar é de forma transitiva ou intransitiva?
Zeros and Ones, 2021.
O plano é de suma importância para Ferrara, por isso é sempre destruído pela Força. A Força é o que molda esse plano, ao documentar a cidade, como em Rei e bem vindo a nova york, e até mesmo em cidade do medo, a carga dramática ganha um peso de que não é só nos que estamos ali sendo presenciados pelo maul que assola a humanidade, da dualidade sendo ambiguizada já na abertura do filme, quando Ethan, como ele mesmo, descreve um pouco do seu personagem do filme ao assistirmos. Essa abertura que simula um extracampo depois da própria projeção do filme e que parece não fazer parte da sua decupagem, se mostra a posteriori uma amarração para que o plano, (aqui plano também como a própria vontade fílmica, de objetivo a ser traçado) para que a obra se feche em si mesma, amarrando alguma ponta solta, o que nos leva diretamente a outra contradição. O filme em si não é para ser amarrado como os dois planos que abrem e fecham-o, mas que se façam como uma maior negatividade afim de delimita-lo, digo, tudo que esta sendo legislado e julgado é porque possui uma potência tão destruidora que será capaz de nos por em combustão espontânea. É dos místico que vos fala o diretor, dessa Força abstrata que nos organiza em sociedade e que esta nos impondo a sermos cada vez mais microscópicos. A família é mais importante, e por ser mais próxima pode ser positivada, reconhecida empiricamente, enquanto os fantasmas que comandam o mundo e o levam a desgraça estão se familiarizando em camadas que não servem a nossa consciência, algo ordena esses corpos, talvez seja essa mesma vontade que ainda amarra o filme decerta forma, e não o utilitarismo primado. O formalismo em Abel funciona desse modo: a abstração é concentrada pelo positivo, da vontade de expurgar o mal, nem que seja com outro mal, o cinema renegado e ressentido fora da grande indústria, mas que utiliza das suas ferramentas para ainda sobreviver. A dualidade é principalmente essa pequena força que de dentro do laço traçado pela Vontade irá se expandir e romper os limites, produzir novos limiares e abismos. Esses restos que sobram aos artistas que não estão dentro da grande indústria, mas também por experiência não é tao independente, já traça esse meio-termo, mas que em sua filmografia vai ser todo voltado a encenação, a preocupação pelo cinema, e da sua Vontade desenfreada autodestrutiva, como qualquer arte que tenha como principio motor uma ferramenta tecnológica que progride aquém do homem. O homem é alienado de seu progresso, da câmera que deixa de ser obscura, e sai da mão da especulação holandesa, para produzir uma inversão dupla, deixando de auxiliar a pintura, para ganhar poder e linguagem, produzindo a si mesma, e agora também independente de seu próprio criador. Imagens que não podem ser mais detidas por ninguém, senão o imaginário subjetivo e intersubjetivo, de quem ainda insiste em ser mamífero e produzir espirito in vitro, um meio, uma cultura. O problema da arte apontado genuinamente por Platão é esse: ela pode se tornar mera imitação, copia da cópia, já que a realidade para o filosofo é em si uma copia das Formas, levando ela à moralidade antitética, e podemos dizer aqui também o mesmo da linguagem, pôs três mil anos de distância e de guerra continua, é ela agora que precisa ser assistida intransitivamente, pois move a economia das terapias psicanalíticas. A arte deveria dessa forma ir além dos significantes traçados pela linguagem comum-subjetiva para ir de encontro com o símbolo, desse positivismo microscópico em profusão e explosão, produzindo imagens maul concebidas e reacionárias de um imaginário que não pode ser confiscado.
Referencias
Violência, silêncio e revolta velada nas leituras de Safo - Sara dos Anjos, et al.
Montaigne e a ideia da ‘Diversion’: persuasão e sagesse nos Essais - Sergio de Araújo
Essência ou substância? A dificuldade agostiniana ao falar de Deus - Paulo de Góes.
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